02/07/2015

Escritores falam da delicada relação entre literatura e reportagem

Por Keytyane Medeiros

Foto: Bruno Martins
Enquanto escrevia seu mais novo romance, "Que mistério tem Clarice?", o jornalista, cientista político e escritor Sérgio Abranches diz ter feito um "esforço para que o lead não matasse a história". O autor se referia ao primeiro parágrafo de um texto, que, no jornalismo, serve para apresentar os fatos da forma mais direta possível. As dúvidas e dilemas de Abranches foram postas à mesa, hoje, no debate "Jornalistas na Literatura", ao lado da economista, jornalista e comentarista Miriam Leitão (Globo/CBN) e da escritora e repórter especial Adriana Carranca (Estadão).

Em seu novo livro, um romance ficcional, Abranches conta a história de Clarice, uma escritora e professora universitária que descobre um câncer de pâncreas, já em estado avançado. A história é marcada por laços familiares complexos e segredos revelados somente após a morte da protagonista. Além disso, o livro traz histórias de viagens e algumas reportagens. "É um livro que tem jornalismo o tempo todo", afirma. Isso porque, assim como o autor, os filhos de Clarice também são jornalistas e a cada aparição e viagem, Abranches garante que houve um verdadeiro trabalho jornalístico de apuração, já que era necessário fazer uma pesquisa histórica sobre os lugares, hotéis, paisagens e atrações turísticas que aparecem no romance.

Ele conta que aprendeu a escrever jornalismo junto com a literatura, antes mesmo de entrar na faculdade, quando ainda trabalhava como "foca" (repórter iniciante) no jornal Última Hora. O jornalista destaca ainda que ao escrever utiliza estratégias ficcionais numa narrativa jornalística, feita com apuração e serenidade. Assim, deixa o texto mais leve, envolvente e cria expectativa no leitor. "Uma das características da literatura, além da caracterização dos personagens, é criar ou recriar um ambiente", afirma. Algo muito parecido com o que foi feito no seu livro reportagem "Copenhague: Antes e Depois" em que era preciso narrar os fatos da COP-15, uma conferência político-cientifica sobre o meio ambiente realizada em 2010, sem deixar o texto cansativo ou complexo.

Para Miriam Leitão, "não há conflito entre jornalismo e literatura, são atividades complementares". A jornalista e comentarista já lançou sete livros, sendo três infantis, três ficcionais e um livro reportagem. Para escrever "A saga brasileira", um livro reportagem sobre a estabilização da moeda no Brasil e a trajetória da inflação nos últimos anos do século 20, Miriam Leitão fez inúmeras reportagens. "Fui do gabinete do ministro até a casa da Dona Maria para saber o que estava acontecendo no Brasil", afirma. "O Brasil passou 50 anos com a inflação acima de 10% ao ano, passamos momentos verdadeiramente dramáticos. Eu tinha de passar esse sentimento no livro, não poderia escrever como se fosse algo gelado e distante, porque a vida não é assim."

Em "Tempos Extremos", Miriam conta a história de uma família divida pela ditadura militar no Brasil. Dois irmãos vivem um conflito ideológico profundo dentro de casa - enquanto a irmã é guerrilheira o irmão trabalha para o Exército durante o regime militar. A família, no entanto, não fala sobre o assunto e ignora a briga entre os irmãos. "Tempos Extremos é uma alegoria da ditadura militar, já que nesse país nunca discutimos esse tema profundamente, assim como acontece com as fraturas internas dessa família", afirma. Para Miriam, a ficção dá enormes ferramentas para fazer jornalismo e vice-versa. 

Experiências pessoais fortes também serviram de inspiração para outra participante da mesa, a repórter e escritora Adriana Carranca. Se Miriam foi presa e torturada na ditadura, Adriana viu de perto o sofrimento da população civil em conflitos armados. Autora de livros como "O Irã sob o chador" e "O Afeganistão depois do Talibã", Adriana conta que os livros surgiram de experiências e viagens pessoais e nasceram da curiosidade que sentia sobre esses países.

Adriana acredita que o repórter deve viver o cotidiano das pessoas e procurar atingir o coração das pessoas, tornar suas histórias próximas e reais para os leitores. "As histórias reais muitas vezes são mais incríveis que as histórias que a ficção pode criar", afirma. No entanto, é categórica ao afirmar que o jornalista não deve equalizar conflitos a fim de ser neutro: "se o conflito é desequilibrado, nossa função é reportar aquela realidade. Não cabe a nós como jornalistas equalizar ou maquiar a realidade."

Em seu livro mais recente "Malala – a história da menina que queria estudar", Adriana se misturou à vida dos paquistaneses para compreender o cotidiano de Malala e decidiu contar a história da jovem num livro reportagem infantil, para que fosse mais acessível para crianças iguais a Malala.

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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