Por Keyty Medeiros
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| Álvaro Costa e Silva (Folha de S. Paulo). Foto: Alice Vergueiro |
No início dos anos 80 um avanço científico inédito causou alvoroço na redação da Revista Veja em São Paulo. A publicação divulgou uma pesquisa alemã envolvendo a suposta fusão genética entre células de boi e de um tomate, que resultava em um híbrido de sabor e nome duvidoso: o boimate.
Erros como esse acontecem com frequência nas redações, no entanto, é possível - e até saudável - aprender com eles. Pelo menos é o que acredita o jornalista João Paulo Charleaux, mediador da mesa “Oooops! O que grandes jornalistas aprenderam com seus grandes erros”, que ocorreu neste sábado (30) durante o 13º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo e contou com a participação dos repórteres Marcelo Beraba (Estadão) e Álvaro Costa e Silva (Folha de S. Paulo).
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| Marcelo Beraba(Estadão) e João Paulo Charleaux(Nexo) |
Em 1971, ainda estagiário no jornal Estadão, Beraba entrevistou o major de um batalhão do Detran no Rio de Janeiro a respeito das políticas locais de trânsito. A notícia trouxe uma imprecisão: o repórter afirmou que a receita das multas aplicadas pelos guardas eram direcionadas ao órgão. Acontece que na época a soma era enviada para a Secretaria da Fazenda do Estado do Rio de Janeiro. O major notificou o jornal e Beraba sentiu pela primeira vez os riscos de uma apuração pouco aprofundada.
“Para mim foi uma grande lição - e uma sorte ter acontecido no início da carreira. Entendi que se eu não levasse essa profissão a sério e não passasse a conhecer de fato os assuntos, ia cometer erro atrás de erro. E erros muito mais graves”, afirma.
Segundo Beraba, o apego aos fundamentos da profissão, como observação, entrevista e documentação é essencial para produzir conteúdos precisos. Os erros mais comuns quase sempre envolvem desatenção, presunção ou “excesso de confiança na memória”, comenta.
“Eu e João Gilberto”
O erro não é um privilégio dos novatos. Álvaro Costa e Silva, jornalista e cronista com longa carreira na Folha de S. Paulo, acaba de passar por algo semelhante. Em abril deste ano, Silva publicou a crônica “À espreita de João Gilberto”, sobre a disputa jurídica que envolve o recluso cantor e seus parentes.
O jornalista abre o texto localizando a casa de João Gilberto na Rua General Urquiza, no Leblon. No dia seguinte, o caderno de cultura do mesmo jornal noticiou que o cantor havia recebido uma procuração em sua casa, na Gávea, outro bairro carioca.
O erro virou assunto para a Ombudsman do jornal e despertou sentimentos ambíguos no jornalista. “Eu deveria ter desconfiado do endereço que o escritório de São Paulo mandou e ter apurado mais”. Para o cronista, que mora no Rio de Janeiro, o problema não foi não ter falado diretamente com João Gilberto, mas ter deixado de confirmar a informação com amigos ou parentes do cantor.
Outros jornalistas que estavam no debate sentiram-se à vontade para compartilhar suas histórias, com erros no digital e no impresso. “A pressa do tempo real é um convite para cometer uma barriga, um erro”, avalia Costa e Silva.
Mesmo com revisores e editores para conversar, os erros são inevitáveis. De acordo com Beraba, quando você começa a olhar os erros, percebe que a maior parte deles são geográficos, de nomes ou peso. “Não dá para confiar só na memória e não checar”, disse. No digital ainda é possível corrigir quase ao vivo, mas Costa e Silva reforça que “no caso do impresso, o João Gilberto vai ficar morando lá para sempre”.
O 13º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, McDonald's, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.


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