Por
Carolina Moraes
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| Mestre Zuenir Ventura contou histórias da carreira e opinou sobre o jornalismo contemporâneo l Foto: Alice Vergueiro |
Mesmo indicando que “é difícil devolver aos jovens o clima daqueles
tempos”, Zuenir Ventura conseguiu remontar os vários ambientes em que circulou
para fazer algumas de suas grandes reportagens. Em conversa com Cláudia Laitano, do jornal ‘Zero
Hora’, e Andreia Sadi, da Globo News, o jornalista contou os bastidores de trabalhos como o caso Chico Mendes, no 'Jornal do Brasil', a produção “Cidade
Partida”, sobre Vigário Geral, e entrevistas com figuras como Fidel Castro,
Glauber Rocha e Carlos Drummond de Andrade.
A série de reportagens sobre Chico Mendes, que recebeu um prêmio Esso,
foi destaque na conversa. O escritor falou da época em que atuou como repórter especial do JB e recebeu o convite para fazer uma cobertura na Amazônia. Aos 58 anos, Zuenir resistiu inicialmente. “Se você quer me
demitir, tem outros meios”, brinca. “Eu odeio floresta, tenho medo de cobra”.
Depois de um mês estudando o Estado, embarcou para mergulhar na história do
assassinato do ambientalista e retornou mais oito vezes ao local. O envolvimento com o caso teve desdobramentos intensos. Quando surgiu a suspeita
de uma armação para assassinar Genésio - a única testemunha do assassinato e
com 13 anos na época -, Zuenir o trouxe para o Rio de Janeiro. Preferiu evitar
a morte a ter de escrever sobre ela.
A curiosidade de Ventura criou episódios lembrados por mestres de sua geração, como a vez que, sem saber como estimar o número de participantes em um evento pela vinda do papa ao Brasil, Ventura colocou repórteres dentro do elevador para calcular quantos caberiam em um metro quadrado. Com o número e uma fita métrica nas mãos, foi de madrugada ao local e estimou o número para a reportagem. “Quando me perguntam qual a melhor qualidade do repórter eu falo que é
a curiosidade”, explica.
A curiosidade também guiou suas descobertas durante a produção da reportagem "Cidade Partida". Foram quase 10 meses frequentando um dos locais mais
violentos do Rio de Janeiro para captar o clima do ambiente. “Eu entrei lá pensando ‘Por que tem tanto menino
no tráfico?’, e saí de lá pensando ‘Por que tem tão pouco menino no tráfico?”,
relembrou. A reportagem ganhou o Prêmio Jabuti de 1995 de Melhor Reportagem.
Imprensa atual
O jornalista avalia que a imprensa melhorou quando o assunto é ética.
“Esse termo passou a frequentar o vocabulário da redação muito recentemente”,
afirma. “Eu tenho aprendido muito com vocês dessa nova geração”.
Zuenir vê a imprensa como a nova "Geni" – uma referência à música de Chico
Buarque de Hollanda. "É um pouco do que chamo de síndrome da má-notícia. Quando
alguns reis recebiam a má-notícia, matavam o emissário", explica. "Tem pessoas,
pontua o escritor, que acham que a violência é a imprensa que gera."
A cerimônia em homenagem ao jornalista encerrou o primeiro dia do Congresso da Abraji, nesta quinta-feira (28). Zuenir ocupa a cadeira de número 32 da Academia Brasileira de Letras. Nascido no interior de Minas Gerais, formou-se em Letras Neolatinas pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Passou por grandes redações, como 'Jornal do Brasil', 'Veja' e 'Isto É'. Hoje, aos 87 anos, é colunista do
jornal 'O Globo'.
O 13º Congresso Internacional de
Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi
Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism
Project, McDonald's, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo jornal, Twitter
e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos
Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas,
Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the
Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde
sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do
Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da
Abraji.

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