28/06/2018

Zuenir Ventura: “Notícias falsas são o novo nome para os boatos”

Homenagem ao jornalista encerra primeiro dia do 13º Congresso de Jornalismo Investigativo

Por Ruam Oliveira
Mestre Zuenir Ventura foi homenageado na sessão que encerrou o primeiro dia de Congresso | Foto: Alice Vergueiro
Aos 87 anos, dono da cadeira de número 32 na Academia Brasileira de Letras, antes pertencente a Ariano Suassuna, o escritor e jornalista Zuenir Ventura é o homenageado do 13º Congresso de Jornalismo Investigativo em cerimônia realizada na tarde do primeiro dia do evento, 28, em São Paulo.

Ao lado de amigos e ex-colegas de profissão, o Mestre Zu, como é conhecido por muitos deles, mostrou-se inicialmente nervoso com a quantidade de pessoas presentes no auditório da Universidade Anhembi Morumbi, na zona sul da capital paulista. “É como se fosse a primeira matéria que escrevi”, brincou. É dele um dos relatos mais fiéis sobre 1968 “o ano que não terminou”, momento crítico para a democracia brasileira marcada pela repressão imposta pela ditadura civil-militar.

Ao receber a homenagem das mãos do atual presidente da Abraji Daniel Bramatti, o escritor gastou boa parte de seu discurso falando sobre o fenômeno das notícias falsas. “São uma contradição em termos”, ele disse. Para serem notícias, elas não podem ser falsas e Ventura destaca que elas são “um novo nome para a prática dos boatos”, agora com a ajuda da internet como ferramenta de propagação.

Ele não considera a si mesmo entendedor de política, mas embutiu em sua fala o quanto as notícias falsas são uma “das maiores preocupações” em tempos pré-eleitorais. Trouxe consigo a memória da fala do ministro Luiz Fux, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, que falou recentemente que a influência deste tipo de notícia, se comprovada, pode fazer com que as eleições deste ano no Brasil cheguem “ao extremo de ser anuladas”.

“A imprensa não tem, como a Justiça, mecanismo punitivo, mas às vezes consegue desmoralizar a mentira, como fez com a onda dos sórdidos ataques à vereadora Marielle Franco, que fora executada com o motorista Anderson Gomes”, disse.

Não deixou, porém, de citar que a mídia muitas vezes contribui com um caráter negativo da notícia: “Não nos interessamos pela normalidade. Temos uma certa preferência pelo mórbido, o teratológico, o monstruoso (...)”. Autocrítica dentro do jornalismo foi a sugestão deixada por ele.

Nascido em Além Paraíba, interior de Minas Gerais, Zuenir é formado em Letras Neolatinas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Realizou sua primeira contribuição jornalística ao escrever o obituário de Albert Camus, escritor francês morto em 1960. O texto foi publicado na Tribuna da Imprensa, jornal de Carlos Lacerda, onde trabalhava como arquivista.

Atualmente é colunista do jornal O Globo, e ao longo de seus mais de 50 anos de profissão passou pelas redações do Correio da Manhã, Jornal do Brasil, Visão, Veja, IstoÉ, entre outras.

Seu ex-chefe Elio Gaspari antecedeu sua fala, reforçando tudo o que Ancelmo Gois, Marco Ventura, Joaquim Ferreira dos Santos, Aluizio Maranhão, Dorrit Harazim e Artur Xexéo disseram em mini-documentário exibido durante a sessão de homenagem.

Para diferenciar-se dos discursos que relembraram a trajetória do jornalista, Gaspari mencionou que geralmente falam muito sobre a produção do Zuenir, mas raramente se fala sobre seus esforços para trazer os exilados de volta ao Brasil, como fez com o escritor Ferreira Gullar.

Conversa com Veríssimo

O também escritor Luis Fernando Veríssimo subiu ao palco para dividir com Ventura um breve momento de conversa. Já sem o nervosismo inicial, Zuenir fez os ouvintes rirem com suas lembranças do tempo de criança, antes do jornalismo, quando ainda era coroinha em Ponte Nova, Minas Gerais.

Em meio ao conto de causos pré e pós vida no jornalismo, Ventura disse que esta noite “valeu a pena”, porque foi um clima de cumplicidade, um momento em que sentiu-se orgulhoso pelo reconhecimento de seus pares. “Só por este dia já terá valido a pena não ter desistido antes mesmo de começá-la [a carreira], nos anos 50, quando li num manual o que era notícia: ‘cachorro mordendo o homem não é notícia; notícia é o homem mordendo o cachorro”. Passar a vida atrás de homem mordendo cachorro, para Zuenir, não era algo que conseguiria.

A cada edição do Congresso, a Abraji homenageia figuras consideradas de destaque no jornalismo brasileiro. Em 2017, o jornalista Sérgio Gomes, diretor da OBORÉ e coordenador-geral do Projeto Repórter do Futuro, recebeu das mãos de Audálio Dantas a homenagem ao Projeto por sua contribuição à imprensa. Na mesma edição o repórter Carlos Wagner recebeu a honraria por sua trajetória na reportagem.

José Hamilton Ribeiro, Dorrit Harazim, Elvira Lobato, Joel Silveira, Rosental Calmon Alves, Tim Lopes, Elio Gaspari, Clovis Rossi, Janio de Freitas, Marcos Sá Corrêa e Paulo Totti também já foram homenageados pela organização.

O 13º Congresso internacional de Jornalismo investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, McDonald's, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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