26/06/2016

"A propaganda não vai pagar a conta dos veículos", afirma Bob Garfield, da NPR


Por Jeniffer Mendonça e Tiago Aguiar

Como viabilizar economicamente o jornalismo, atingir o público e fornecer informação de qualidade? Um dos apresentadores do programa norte-americano On The Media, da NPR, Bob Garfield é enfático: "A propaganda não vai pagar a conta dos veículos". 


Fotos: Alice Vergueiro
No painel "Imprensa: o que vem depois da crise?", o jornalista também destacou que cada vez mais os leitores desconfiam do papel da mídia e que o mercado do consumo de notícias mudou e não vai voltar nunca mais a ser o que era, assim como a propaganda nos veículos. O debate foi mediado pelo jornalista Fernando Rodrigues, do UOLe encerrou o 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo no sábado (25).

Para ratificar o seu posicionamento, Garfield usou como exemplo a criação do jornal The Sun, o primeiro que utilizou da propaganda, de preço baixo e escala alta para atingir a audiência de massa.

"Esse modelo durou por quase dois séculos, mas durou, com o verbo no passado", comentou o jornalista, que escreveu um artigo referência na discussão do futuro da mídia, que se tornou posteriormente o livro "Cenário de Caos" (Editora Cultrix, 304 pags., R$ 49,50 ). 

Segundo Garfield, a economia das organizações jornalísticas foi tocada durante 300 anos por três fatores: simbiose (convergência entre público, anunciantes e a imprensa), barreiras de entrada (devido a custos altos, limitando a competitividade do mercado) e demanda alta e baixa oferta (tornando o segmento muito lucrativo).

Ele perguntou ao público: "Quantos de vocês já clicaram num banner publicitário?". Com apenas um braço levantado, Garfield disse sobre o lugar que a publicidade possui no século 21 e como o investimento no setor diminuiu o alcance de empresas jornalísticas. "Quando as pessoas tiveram a oportunidade de fugir da propaganda, elas o fizeram", afirmou

Dentre os modelos de sucesso, citou o jornal The New York Times, onde já trabalhou, como referência. "É a melhor organização do mundo, tem um milhão de assinantes". Fernando Rodrigues ponderou, no entanto, que é uma alternativa não replicável no Brasil e que ainda é próximo da lógica da "audiência de massa". Garfield concordou. "O New York Times nunca vai falir".



O norte-americano destacou ainda que os micro-pagamentos, ou seja, contribuições do público, são a fonte mais viável de financiamento, mas que precisariam ser universais e com a menor barreira possível.  "O problema é que sistemas do mundo inteiro cobram muito caro para fazer cada transação, e tudo isso precisa ser feito de forma transparente".

Ao comentar sobre o Washington Post, apesar de ter enfatizado que hoje o jornal tem um déficit na ordem de centenas de milhões de dólares, elogiou o uso das redes sociais e da estratégia online. "Quanto mais avançamos, mais o jornal vai se parecer com o BuzzFeed e vice-versa. Todos nós abraçamos técnicas que aumentam a audiência e tornam notícias compartilháveis".

Questionado sobre a longevidade do Facebook, o jornalista disse que há usuários ativos demais, entre histórias de vida e conexões, nos perfis individuais para que a rede social não dure a médio prazo. Mencionou ainda o Wall Street Journal, o Financial Times e a The Economist como organizações jornalísticas que sempre terão demanda. "Esses veículos conseguem dar informações exclusivas que as empresas vão pagar para obtê-las", enfatizou.




O jornalista comentou sobre o momento de polarização ideológica, como na cobertura das eleições presidenciais norte-americanas, associado à veiculação de notícias. "Hoje em dia as pessoas procuram ler o que reforça suas ideias. A mídia não pode fazer papel de árbitro, tem que apresentar todo o contexto", afirmou.
   
Garfield também comentou que veio ao Brasil para, durante uma semana, entrevistar o máximo de pessoas e tentar entender a crise político-econômica que o país atravessa e o papel que o jornalismo brasileiro tem desempenhado em meio ao caos. Ele terminou com um recado de solidariedade: "É um privilégio participar desse evento e conhecer grandes jornalistas. Lamento pelo que o Brasil vem sofrendo, mas admiro a determinação para superar a crise".


O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Nenhum comentário:

Postar um comentário