24/06/2016

Morte de dois rios: a cobertura de desastres ambientais no Rio Doce e Jacuí

Por Erick Noin


Em novembro de 2015, uma barragem de rejeitos de mineração de ferro da Samarco em Mariana (MG) rompeu, soterrando um distrito da cidade e matando 18 pessoas.  Considerado o maior desastre natural da história do país, a lama com elementos tóxicos acabou invadindo o Rio Doce e desaguando no litoral do Espírito Santo, afetando incontáveis ecossistemas e comunidades.

Esse foi o assunto da série de reportagens "Caminho da Lama" realizadas pelo repórter Lucas Ferraz e pelo fotojornalista Avener Prado para a Folha de S. Paulo e relatadas nesta sexta-feira (24) durante o 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji. Junto a eles, o repórter Fábio Almeida, da RBS TV, também mostrou sua série de reportagens intitulada "Jacuí – crime e agonia" sobre a tragédia ambiental que vem matando um rio no estado do Rio Grande do Sul há décadas.

O Rio Jacuí, que percorre cerca de 800 km desde sua nascente até desaguar na região de Porto Alegre, tem sido explorado predatoriamente há pelo menos 30 anos por mineradoras em busca da areia de seu leito. Segundo Almeida, após o esgotamento das jazidas, os navios draga (que retiram areia do rio) passaram a adotar práticas ilegais, retirando material de áreas de proteção ambiental, praias (a apuração contabilizou o desaparecimento de pelo menos 100 praias) e das margens do rio, comprometendo as áreas devido a um processo conhecido como "solapamento".


A atividade afetou moradores e comunidades de pescadores das regiões, já que a atividade intensiva praticamente acabou com a vida no rio. Apesar das diferenças entre as duas tragédias ambientais, a reflexão dos jornalistas deixou claro que ambas possuem elementos idênticos: a exploração econômica insustentável, o descaso do governo e o enorme poder que as mineradoras detêm.

"VERDADEIRA MÁFIA"

A economia da cidade de Mariana, por exemplo, é extremamente dependente da mineradora Samarco, "joint venture" da Vale do Rio Doce e da BHP Billiton da Austrália, duas das maiores mineradoras globais. Cerca de 90% da arrecadação de impostos da cidade vem da atividade mineradora.

Dessa maneira, disse Ferraz, "foi muito simbólico a primeira entrevista do governador Fernando Pimentel (PT-MG) ter sido dentro da empresa". Ele também relatou que as operações dos bombeiros e da polícia após o desastre também tiveram os prédios da empresa como sede. Por outro lado, embora tenham sido algozes da destruição de tantos meios de vida, essas empresas continuam sendo grandes empregadores na região, colocando os trabalhadores atingidos em situação ainda mais complicada.

Ainda que não tenha tido as proporções de Mariana – que em poucos dias liberou 62 bilhões de litros de rejeitos – o desastre no Rio Jacuí carrega os mesmos elementos. Almeida chamou de "verdadeira máfia" as principais empresas que atuam na exploração do rio e fornecem quase toda a areia para a construção civil no Estado.
Em ambos os casos, entretanto, a fiscalização não foi suficiente. Em Minas Gerais, não conseguiu identificar as falhas de projeto e de gestão da barragem de Fundão onde tanto a Samarco quanto a Vale despejavam seus rejeitos. No Rio Grande do Sul, onde o descaso se prolonga há décadas, a situação parece pior. Almeida disse que o órgão de fiscalização ambiental estadual Fepam (Fundação Estadual de Proteção Ambiental), responsável pela permissão dada às empresas de mineração, não tinha capacidade de fiscalizá-las, devido à falta de recursos.

COBERTURA 

As duas séries de matérias, embora tenham encontrado os mesmos problemas, geraram diferentes experiências. Devido ao grande interesse midiático que se formou em torno de Mariana logo após o desastre, Ferraz e Prado buscaram fazer uma cobertura de imersão, fugindo dos clichês e fórmulas repetidas.

Já a reportagem do Rio Jacuí buscou denunciar algo até então pouco discutido, mas há muito conhecido. O trabalho de Almeida resultou em uma série de investigações criminais sobre as empresas, levando inclusive à prisão temporária do presidente da Fepam e até a uma paralisação da exploração de areia no rio, o que fez dobrar o valor do produto em Porto Alegre. "Me cobravam por isso, mas não era o objetivo", brincou.


O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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