24/06/2016

Na academia, pesquisadores exploram ferramentas, linguagens e ideias do jornalismo

Por Caio Nascimento

Exibida na manhã desta sexta-feira (24), a primeira rodada do "III Seminário de Pesquisa em Jornalismo Investigativo" destacou quatro projetos analíticos do gênero. Os selecionados nesta edição apresentaram estudos sobre liberdade de imprensa, segredo de justiça, Lei de Acesso à Informação e linguagem narrativa.

Foto: Alice Vergueiro
O pesquisador Rodrigo Daniel da Silva, pós-graduando em "Corrupção: controle e repressão a desvios de recursos público" pela Estácio-RS, apresentou seu artigo sobre segredo de justiça e a liberdade de imprensa.

Em sua pesquisa, Silva chegou à conclusão que a liberdade de imprensa e o direito à informação se tornaram vitais para a sociedade moderna. "Os desinformados são as primeiras vítimas na luta pela vida", afirmou.

Ele considera a liberdade de imprensa algo essencial para a sobrevivência humana e afirmou que ela ainda não é plena no Brasil, apesar de garantida pela Constituição. Para o jornalista, os juízes estão deliberando sentenças a partir de suas próprias decisões. "A concepção do Barão de Montesquieu de que o juiz é apenas a boca da lei ficou para trás. Hoje, eles têm um poder de decidir os rumos do país", disse.

Silva também pontuou o rompimento do segredo de justiça por parte dos jornalistas. "Os favoráveis à quebra do sigilo dizem que toda informação de interesse público deve ser publicada, mas não podemos nos revestir com esse manto para informar qualquer coisa e quebrar direitos como o da privacidade".

Em relação à proibição da divulgação de processos em segredo de justiça pelo artigo 156 do Código Penal, o pesquisador interpreta que, se o jornalista publica uma informação sigilosa que lhe foi passada, o sigilo já foi quebrado antes de chegar a ele. "O repórter não pode ser penalizado por isso", defendeu.


LEI DE ACESSO À INFORMAÇÃO

Verônica Rufino, mestranda em jornalismo pela UFPB (Universidade Federal da Paraíba), escreveu um artigo sobre a Lei de Acesso à Informação como ferramenta de combate à corrupção por jornalistas investigativos.

Orientada pelos professores Pedro Benevides e Sandra Moura, a jornalista analisou uma reportagem da série "Cadê o dinheiro que estava aqui?", exibida pelo Fantástico, da Rede Globo, que trata do caso de desvio de dinheiro público nas prefeituras do Crato e de Juazeiro do Norte, no Ceará, para empresas de fachada com contratos superfaturados. "Utilizei algumas informações do Ministério Público Federal, da Controladoria Geral da União e da própria Câmara Municipal de Juazeiro do Norte", contou.

A matéria analisada na pesquisa foi elaborada pelo repórter investigativo Eduardo Faustini, conhecido pela discrição.  Para Verônica, a função de Faustini na matéria é uma atividade fundamental para se revelar casos de corrupção. "O Eduardo é o autor social responsável pela exibição desses fatos voltados para a investigação da corrupção. Isso vai  de encontro com o interesse do bem comum", ressaltou.

Priscila Ferreira, aluna de jornalismo da UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto), integra a turma que produz o Lampião, jornal laboratório da faculdade. Com o auxílio da professora Karina Barbosa, ela elaborou uma pesquisa sobre o uso da Lei de Acesso à Informação no periódico universitário.

De acordo com a estudante, a norma não é trabalhada no ensino superior e muitos alunos só tomam conhecimento da lei quando entram no jornal laboratório, no 5º semestre da graduação. 

"O curso não dá assistência ao aluno para ele tomar conhecimento da lei", afirma. Priscila também aponta que a influência no processo de produção de um veículo que não faz uso de dados, acaba dando ao trabalho jornalístico um teor testemunhal. "No desastre socioambiental em Mariana, o jornal Lampião não tinha retorno dos órgãos públicos e ficamos reféns das informações da Samarco", disse.

NARRATIVA JORNALÍSTICA

Recém-formada em jornalismo, Gabriele Koster traçou em seu TCC uma análise de conteúdo das reportagens da Publica, agência de reportagens de jornalismo investigativo, com a orientação do professor Felipe Simão, quem a representou no painel.

De acordo com Simão, o objetivo do projeto foi a apuração da estrutura narrativa dos textos do veículo a partir das ideias do jornalista Luiz Gonzaga Motta, conhecido pelo estudo da narrativa.  

Segundo o professor, a Publica tem uma grande preocupação com a narrativa da matéria. "As reportagens deles têm liberdade na narrativa literária, mas o trabalho de investigação jornalística caracteriza muito a singularidade do trabalho jornalístico em oferecer dados que são a própria narrativa", conclui o professor.


O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.


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