24/06/2016

“Quem paga as contas ainda é o papel impresso”, diz editor-executivo da Folha

Por Karina Balan


Os diretores dos três principais jornais brasileiros discutiram nesta sexta-feira (24), no painel "Como investir em reportagem em tempos de crise", os desafios de se fazer bom jornalismo num momento de esvaziamento das redações e de grandes perdas com a receita publicitária. Apesar do momento difícil, João Caminoto, diretor de jornalismo do jornal O Estado de S.Paulo, Sérgio Dávila, diretor-executivo da Folha de S.Paulo e Ascânio Seleme, diretor de redação do jornal O Globo, apostam na combinação entre plataforma digital e histórias exclusivas.

Foto: Alice Vergueiro
"O desafio é continuar sendo relevante, a gente tem que ter gente boa e bem remunerada em abundância, mas não temos. Os problemas dos jornais não estão nas redações, o principal problema é que o anunciante, que pagava metade das contas, foi embora", disse Ascânio Seleme, diretor de redação de O Globo.

 Os jornalistas ressaltaram que a oferta de conteúdo digital é muito grande, o que faz com que a informação seja vista como commodity. Segundo o editor executivo da Folha de S.Paulo, Sérgio Dávila, a abundância de informação faz com que os consumidores atuais estejam pouco dispostos a pagar por notícias.

Contudo, as facilidades da rede não diminuíram os custos de se fazer reportagem. "É muito caro produzir o conteúdo que a gente produz; a gente tem que encontrar meios de buscar novos leitores, apostando em mais análise", conta Ascânio. Os profissionais destacam que a produção de reportagens de fôlego exige a dispensa de bons repórteres das redações, e que as apurações nem sempre geram retorno.

A maior parte da receita dos jornais ainda é proveniente do impresso, embora o número de assinaturas online tenha crescido progressivamente. "Existe um fetiche em torno do digital, mas ele ainda é uma promessa, e não uma realidade do ponto de vista financeiro. Quem paga as contas é o papai impresso", avalia Sérgio Dávila

Em meio à fuga dos anunciantes, os jornais apostam em diferentes conteúdos para cada plataforma. João Caminoto, diretor de conteúdo de O Estado de S.Paulo, afirma que o digital abriu novos caminhos para a reportagem, como o jornalismo de dados dados e reportagens multimídia. "A reportagem em profundidade ganhou força. Agora podemos oferecer novos formatos, em vídeo, podcast, realidade virtual", diz. Para ele, algumas reportagens ganham muito mais vida no ambiente digital .

Quanto às projeções para o futuro, eles acreditam que o jornalismo se adaptará aos novos modelos de negócio. "O que vamos ter é um jornal que vai depender mais da circulação", disse Sérgio Dávila. Segundo ele, os portais de notícia ainda têm que competir com o Facebook, Google, Twitter e Instagram. "Imagine um dia nas rede sociais, sem conteúdo produzido pelos jornais. Será que nós, usuários, nos contentaríamos com este conteúdo?", questiona.


O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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