23/06/2016

Jornalismo ainda não aprendeu a lidar com as questões raciais, dizem jornalistas

Por Caio Nascimento

A discussão sobre questões raciais no jornalismo ainda é muito incipiente tanto por culpa da maioria dos jornalistas, que não se organiza pela causa, quanto pelo fato de muitas pessoas acreditarem que esse tema não se enquadra no debate atual sobre a mídia. É o que aponta a jornalista Fabiana Moraes, mediadora da discussão sobre jornalismo e questões raciais na manhã desta quinta-feira (23) no 11ª Congresso da Abraji. 

O debate contou com as palestras de Juliana Nunes (Distrito Federal) e Cinthia Gomes (São Paulo), integrantes da Cojira (Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial) em seus respectivos estados.

Foto: Alice Vergueiro
Para Cinthia, a mídia ainda apresenta o negro como personagem de matéria sobre sua negritude. "É raro ver negros sendo entrevistados pelos seus postos na sociedade, mesmo em reportagens positivas", afirma ela ao criticar a matéria sobre empreendedores negros, publicada no portal G1, que, apesar de positiva, os enaltecem apenas como figuras negras que ascenderam socialmente, ao invés de mostrá-los como cidadãos que estão ali por causa de seus conhecimentos.



Segundo a jornalista, o modelo midiático necessita evoluir quando se trata dos negros. "A mídia precisa seguir novos modelos que não reforcem preconceitos e estereótipos". Em sua fala, ela destacou que é necessário adotar tratamento equitativo entre homens e mulheres nas pautas e, sempre que possível, usar dados de raça, sexo e etnia para contextualizá-las. 

Além disso, Cinthia frisa que é preciso evitar o contexto exótico nas reportagens que tratam sobre mulheres negras, indígenas e quilombolas para que a narrativa valorize as tradições, e não os esteriótipos. Quanto às imagens desses grupos, ela aconselha a mudança do padrão estético no qual predominam, por exemplo, homens e mulheres brancas em fotos. 

AUSÊNCIA DE NEGROS

De acordo com dados do GEEMA (Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa) da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), uma baixa parcela dos colunistas nos três principais jornais do Brasil é negra. Em O Estado de S.Paulo, apenas 1% dos colunistas é negro, enquanto a Folha de S. Paulo tem 4% de negros entre os formadores de opinião. Já em O Globo o número salta para 9%. 

Cinthia Gomes diz que esses dados revelam uma prática jornalística pouco diversificada. Ao analisar o perfil de jornalistas da equipe do "Jornal Nacional", ela contou que a maioria  é de homens brancos de classe média ou alta. Para aumentar a diversidade no jornalismo, ela cita iniciativas da Cojira para incluir a diversidade racial nas pautas e nas redações, como o curso "Gênero, Raça e Etnia para Jornalismo", o "Guia de Fontes" que compila contatos de profissionais, pesquisadores e personagens negros para entrevistas, e o concurso cultural "Negritude em Pauta", que estimula a produção de matérias relacionadas à questão racial entre estudantes de jornalismo."É preciso uma readaptação de postura por parte dos meios de comunicação para que tenhamos mais profissionais negros no meio jornalístico", pontua Cinthia. 

Para a jornalista Juliana Nunes, é necessário falar sobre o racismo na mídia. "Ele [o racismo] está institucionalizado na nossa sociedade e existem pessoas negras, homens e mulheres, que estão lutando para reverter isso", aponta ela. Na EBC, onde trabalha, Juliana conta com um coletivo negro dentro da empresa composto por cerca de trinta jornalistas. Na empresa pública, ela ressalta as produções jornalísticas que desnudam o racismo no Brasil, como "Grande Otelo: o gênio negro da arte brasileira".  

Segundo ela, as pautas raciais do jornalismo devem ser abordadas por todos profissionais, independentemente da cor, mas ressalta que é importante o jornalista negro poder trabalhar com isso. "Pautas raciais podem mudar a vida do jornalista negro e a própria forma dele encarar a profissão", disse. Para Juliana, isso permite o empoderamento do negro no exercício da profissão. "Ele se fortalece nesse processo e temos tido avanços importantes da comunicação pública em relação a isso. Maria Júlia Coutinho [jornalista de meteorologia da Rede Globo] é um exemplo, ao reafirmar sua posição de mulher negra diante dos ataques racistas que sofreu recentemente", conclui.


O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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