23/06/2016

Reportagens mostraram manipulação da taxa de homicídio pelo governo de São Paulo

Por Luan Ernesto Duarte


Os repórteres Alexandre Hisayasu, Bruno Ribeiro e Felipe Resk, do jornal O Estado de S.Paulo, fizeram um levantamento em boletins de ocorrência registrados como "morte suspeita" pela Policia Civil no primeiro semestre de 2015 na capital paulista.

Nesse período, quando Alexandre de Moraes, atual ministro da Justiça, ocupava a Secretária de Segurança Pública do Estado de São Paulo, o governo apresentou uma redução inédita nos índices de criminalidade.

Com o levantamento feito nos boletins, os repórteres acharam 21 casos que ficaram de fora das estatísticas criminais. Eles foram reclassificados, na maioria, como "lesão corporal seguida de morte", apesar de terem um histórico de homicídio.

Foram selecionados 84 casos entre 3.766 registros de "morte suspeita" na capital.
Segundo o trabalho dos repórteres, se os 21 casos tivessem entrado nas estatísticas, o primeiro semestre de 2015 teria fechado com 3,6% a mais de vítimas de assassinato na cidade, ou 590 pessoas mortas em vez das 569 que foram divulgadas pela secretaria.

Eles obtiveram os dados por meio de quatro pedidos via Lei de Acesso à Informação, conforme explicaram nesta quinta-feira (23) no painel "O uso de jornalismo de dados na cobertura criminal". 

Foto: Alice Vergueiro
"Além do requerimento dos dados via Lei de Acesso, também fomos à delegacia diversas vezes. À medida que eu fazia perguntas ao investigador, ele percebeu que eu estava escrevendo uma matéria mostrando que a Secretaria registrava os casos de forma errada", conta Felipe Resk.

Ele também comenta sobre a importância de contextualizar os números com as histórias. Segundo contou, isso foi difícil porque o "boletim de ocorrência físico nem sempre tem um histórico preciso".

O repórter destaca que por meio dos boletins, eles conseguiram os dados pessoais das vítimas. Eles procuraram policiais civis, testemunhas e familiares dos mortos. Os parentes relataram que os crimes foram cometidos por traficantes de drogas, desafetos pessoais e até por assaltantes. Na apuração eles conseguiram mostrar os casos de homicídio que viraram "morte suspeita".

VIOLÊNCIA POLICIAL 

A reportagem de Amanda Rossi, da TV Globo, é um mergulho em mais de 4 mil boletins de ocorrência. Sua equipe fez um retrato da violência em São Paulo e descobriram que 1 em cada 4 pessoas assassinadas no Estado foi morta pela polícia.  

Foram feitos levantamentos com dados públicos para investigar a estatística do governo do Estado. "Como ponto de partida, os números sempre norteiam a reportagem. É necessário 'entrevistar' esses dados, fazendo perguntas, até chegar no lead", explica Amanda.

Através da Lei de Acesso e estatísticas públicas, sua equipe chegou à informação de que apesar da queda das mortes provocadas por PMs em serviço, houve aumento de 61% no número de vítimas da PM de folga.

Todos os boletins de ocorrência de mortes violentas entre janeiro e novembro de 2015 foram analisados antes desses documentos se tornarem sigilosos pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB).

A equipe de reportagem montou um mapa da violência em SP com base nas análises desses boletins que revelam onde morreram e o perfil de cada uma das 1.335 vítimas de homicídio, latrocínio e violência policial, de janeiro a novembro do ano passado.


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