24/06/2016

O jornalista precisa de posições críticas sobre a tecnologia, afirmam especialistas

Por Karina Balan



Conteúdo ainda é a chave para pleitear um financiamento  para produção de jornalismo independente, mesmo com o surgimento de diversas plataformas, apontaram as palestrantes da Mesa “O Jornalismo que Queremos Financiar”. Graciela Selaimen, da Ford Foundation, e Maria Teresa Ronderos, da Open Society Foundation, defendem também que o jornalista deve assumir uma posição crítica diante da tecnologia.


Foto: Alice Vergueiro
"Eu faço perguntas difíceis, pergunto se estão trabalhando com código aberto e software livre. Também temos que entender a dinâmica política por trás das redes sociais e como elas operam", disse Selaimen nesta sexta-feira (24), no 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji.

A Open Society financia projetos em aproximadamente 104 países e com 20 programas temáticos. A Ford Foundation também atua em diversos países, apoiando projetos que duram cerca de dois anos no valor de 200 mil dólares. Ambas as fundações financiam projetos ligados a questões de justiça social, racismo e gênero, por exemplo.


Graciela e Maria Teresa destacaram que financiadores buscam ideias claras, que identifiquem uma necessidade. Entre os critérios para a seleção de projetos estão a transparência e a disposição do jornalista em romper com tabus e buscar novos pontos de vista sobre um tema, além de ter sempre em mente o interesse público da iniciativa.


"Procuramos projetos que tem um público em mente, uma comunidade a quem servir e a quem escutar, e que pense em que tipo de cultura gerar", disse Maria Teresa, diretora do Open Society, que já passou por veículos independentes e faz parte do Conselho da Fundação Novo Jornalismo Iberoamericano (FNPI). "Para muitos financiadores o que importa é o efeito do jornalismo sobre a realidade em um setor específico, é utilitarista".


Segunda Graciela, diretora de projetos da Ford Foundation no Brasil, o modelo democrático dos projetos deve estar refletido também entre seus proponentes. Ela defende que a transparência é um dos valores mais importantes do jornalismo atual, já que o público é ativo nas redes e cobra por qualidade.


"Sempre pergunto onde está a diversidade de raça e de gênero dentro do projeto", ponderou a diretora, lembrando que instituições financiadoras têm interesses específicos em apoiar projetos jornalísticos e buscam histórias compatíveis com sua cultura.


Para Maria Teresa, ainda há um choque entre o tempo do financiador e o tempo do jornalista. "O financiador é muito mais lento e não tem pressa, já o jornalista vai atrás da história não importa se há uma instituição por trás", avaliou.


Para quem tem projetos individuais ou em fase de estruturação, elas recomendam pesquisar e conversar com quem já está no campo, já que o processo de submissão e aprovação de um projeto é complexo. "É um processo burocrático, que exige organização", completou Graciela.


Segundo Selaimen, o profissional que se sustenta integralmente em plataformas proprietárias como o Facebook e softwares com regras restritivas, corre o risco de perder autonomia sobre seu conteúdo, que pode ser excluído a qualquer momento, dependendo dos interesses em jogo.


Maria Teresa também defendeu que o jornalista atual deve estar alinhado com as demandas do digital. "Acabou a ideia de que trabalhamos só com jornalistas, tem que trabalhar com desenvolvedores de software, programadores". Ela ponderou, contudo, que de nada adianta o olhar multiplataforma se houver "mais parafernália do que conteúdo". 



O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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