23/06/2016

Jornalismo não está no fim, diz Elvira Lobato, homenageada pela Abraji


Por Luan Ernesto Duarte

Repórter com quase 40 anos de carreira, Elvira Lobato foi homenageada no 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji, nesta quinta-feira (23), pelo conjunto de sua obra jornalística. Profissional premiada que se notabilizou por inúmeros furos de reportagem, ela afirmou que é preciso ter "otimismo", sobretudo no atual momento de forte crise no modelo de negócios da imprensa escrita, onde ela fez carreira. "Fundamental mesmo é o otimismo, o jornalismo não está no fim", disse. 

Elvira refletiu sobre alguns pontos do jornalismo. "Aprendi com meus erros coisas que a faculdade não me ensinou", declarou na sessão solene. No palco, fez considerações sobre o ofício. "As características que definem o bom repórter investigativo são a curiosidade, a persistência e o otimismo", resumiu.

Em 2008, Elvira recebeu o Prêmio Esso de Jornalismo pela reportagem "Universal chega aos 30 anos com império empresarial", publicada na Folha de S.Paulo, que revelou uma rede de empresas ligadas à Igreja Universal. Em retaliação à publicação, a Universal orientou seus fiéis a entrarem com ações judiciais contra a jornalista e o jornal. Foram mais 110 processos em vários Estados e cidades.

O constrangimento causado pelas ações judiciais abalou a repórter. Três anos depois, ela deixaria o jornal.

Caso semelhante acontece atualmente com jornalistas da "Gazeta do Povo", do Paraná, que sofreram ações orquestradas de juízes, somando 48 processos, em dezenas de cidades do Estado. Os magistrados se insurgiram contra os repórteres porque eles mostram como os juízes paranaenses recebem salários acima do teto fixado em lei. 

Elvira Lobato nasceu em Minas Gerais e começou a trabalhar como repórter antes de se formar. Em 1973, conciliou as aulas da Universidade Federal do Rio do Janeiro com passagens pelo Diário de Notícias, pela assessoria de imprensa do extinto INAMPS, pela iniciativa LIDE, e pelo jornal Luta Democrática e Última Hora.   

A repórter terminou a homenagem comentando que o letreiro do Corpo de Bombeiros que viu recentemente no bairro carioca de Copacabana a define muito bem: "Nada que é humano me é indiferente", "Ou seja, eu levei 40 anos para descobrir que me guio pelo lema dos Bombeiros. E que como eles, pretendendo ficar muito tempo perto do fogo sem me queimar", brinca.  

O Prêmio Abraji de Contribuição ao Jornalismo também consagrou nesta quinta o jornalista Alberto Dines pelos seus 20 anos à frente do programa e site Observatório da Imprensa.

Dines tem mais de 60 anos de jornalismo e iniciou a carreira em 1952 como crítico de cinema. Passou a escrever reportagens políticas para a revista Visão e depois escreveu para a extinta revista Manchete. Dines já trabalhou também em veículos como Última Hora, do jornalista Samuel Wainer, Diário da Noite e Jornal do Brasil.

Em 1973, quando trabalhava no JB, o jornalista articulou uma estratégia para burlar a censura imposta pelo regime militar que vetou manchetes sobre o golpe militar de 11 de setembro no Chile e a morte de Salvador Allende. O fato foi lembrado pelo jornalista e diretor da Abraji, Fernando Molica.

Fernando comentou que buscou uma cópia da capa dessa edição do Jornal do Brasil para ser autografado pelo próprio Alberto Dines. À época, o jornalista conseguiu que o jornal fosse impresso com a notícia, mas sem manchetes. Dines terminou demitido e preso. Molica acredita que esse foi um exemplo de criatividade e coragem.

O decano do jornalismo brasileiro não pôde comparecer à cerimônia, mas enviou uma carta, lida pela sua esposa, a jornalista Norma Couri.


O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.


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