23/06/2016

Projetos constroem bancos de dados sobre políticos e de seus ataques à imprensa

Por Erick Noin


Em novembro de 2011, a presidente Dilma Rousseff (PT) sancionou a Lei de Acesso à Informação, tornando obrigatório que as órgãos públicos, em todas as esferas, disponibilizassem dados sobre a sua gestão. Apesar do avanço, o mar de informação que ficou disponível não se tornaria útil e inteligível de uma hora para outra, o que levou ao surgimento de iniciativas de busca e seleção desses dados. 

No curso "Como usar mecanismos avançados de busca para pesquisar sobre políticos", nesta quinta-feira (23), no primeiro dia do 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, dois palestrantes foram convidados a apresentar seus projetos independentes que podem ajudar jornalistas e qualquer cidadão a monitorar dados sobre políticos.

A ONG Transparência Brasil, onde Juliana Sakai é coordenadora de pesquisa, possui alguns projetos, entre eles o Excelências, que reúne informações dos parlamentares em exercício na Câmara dos Deputados e no Senado, criando um mapa de quem responde por crimes contra a administração pública. O trabalho por trás é extenso, pois exige monitoramento e coleta de dados nos sites de todas as instâncias e tribunais do Poder Judiciário.
Foto: Alice Vergueiro
Os dados das pesquisas disponíveis no site são úteis para jornalistas acompanharem políticos, mas também podem ser ferramentas poderosas para os eleitores escolherem seus candidatos nas eleições e monitorarem a atividade de seus representantes.

Tiago Mali, o segundo palestrante do curso, é jornalista especializado em dados e trabalha na própria Abraji, no projeto CTRL+X, um site que disponibiliza os dados de ações de políticos na Justiça contra jornalistas e veículos de informação para a retirada de conteúdo já publicado, em uma luta contra a censura dos políticos à mídia iniciada em 2014.

Mali diz que a maior parte das ações (já são quase 2 mil no banco de dados do projeto) foi proposta na época eleitoral contra conteúdos considerados negativos. Os principais alvos de ações, porém, são o Facebook Brasil e o Google Brasil, por serem plataformas que reúnem informação de autoria muitas vezes anônima.

Marcos Vasconcellos, chefe-de-redação da revista eletrônica Consultor Jurídico, que assistiu ao painel, revelou também ser alvo desse tipo de estratégia. A Dublê Editorial, empresa responsável pela Conjur, por exemplo, é alvo de dois processos do então candidato a prefeito de São Paulo pelo PRTB em 2008, José Levy Fidelix, que exigiu que notícias a seu respeito fossem retiradas da revista. Fidelix é conhecido por tentar calar jornalistas pelos meios jurídicos.

Juliana Sakai também disse que a Transparência Brasil tem sido autuada por políticos por conta de suas pesquisas, porém nunca foi condenada. "Os dados que disponibilizamos já são de conhecimento público", diz ela, definindo a organização apenas como "intermediário da informação". 


O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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