24/06/2016

Especialistas questionam credibilidade de mídias tradicionais e novas

Por Caio Nascimento 

Ao discutir a relação entre novas mídias e mídia tradicional durante o primeiro dia do 11º Abraji (Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo), nesta quinta-feira (23), Dimmi Amora, repórter da Folha de S. Paulo, Bruno Torturra, fundador da Mídia Ninja, e o doutor em Ciência Política Fernando Lattman questionaram a credibilidade da imprensa. 


Fotos: Alice Vergueiro
Para Dimmi Amora, a mídia precisa seguir um Estado Democrático de Direito consolidado para não ser cooptada por interesses de instituições, conseguindo, assim, manter um discurso relevante para seu público. O jornalista disse que a competitividade entre as mídias, uma boa estrutura econômica do veículo e a diversidade de opiniões dentro dele garantem recursos suficientes para aguentar a pressão dos grupos de interesses. 

"As redações em geral são poucos diversas. Elas são formadas por grupos da sociedade muito homogêneos e isso reflete no que será publicado e nas fontes que formarão a opinião pública", afirmou Amora.

De acordo com o repórter da Folha de S.Paulo, esses fatores são necessários para a credibilidade do trabalho jornalístico. Amora relaciona a pluralidade do veículo à proximidade que ele tem com o seu público. 

Segundo o profissional, uma causa da falta de confiança do leitor é a mistura entre publicidade, opinião e informação. "Hoje não se separam essas três coisas e isso tem colaborado para que confundamos jornalismo com militância. Duas palavras que devem andar separadas", ressaltou. Para Amora, a militância desequilibra a notícia e não mostra os dois lados da moeda, dando ao leitor um só direcionamento. "Esse desequilíbrio leva ao radicalismo e fica nítido nas redes sociais", salientou.


Torturra reforçou essa posição, afirmando que as empresas da informática, como o Google e o Facebook, estão monopolizando o mercado da informação. Segundo o fundador da Mídia Ninja, essas plataformas quebraram a estrutura do modelo de negócio pelo qual a notícia se dava e modificaram a produção da informação. 

Para Torturra, essa nova arquitetura digital leva à fusão dos departamentos comercial e editorial, visto que os "likes" nas redes sociais funcionam como um endosso e angariam visibilidade ao veículo. "Essa união é o fenômeno mais perigoso pelo qual estamos passando hoje", destacou.

Abordando organização de um veículo, Fernando Lattman ressaltou que a institucionalização e a abertura comercial e empresarial dos meios de comunicação no passado colaboraram na construção de uma ética para o jornalismo. 

Segundo o doutor em Ciência Política, a notícia tem um valor de uso e um valor de troca ligados à credibilidade. "Você compra a notícia ao comprar jornais, assinar canais pagos etc. A notícia só pode ser feita pelo seu valor de uso", afirmou o sociólogo.

Torturra discordou. De acordo com o fundador da Mídia Ninja, a credibilidade não significa valor monetário como no passado. "A confiança não é mais essencial para o sustento financeiro de uma instituição porque, hoje, o valor que se extrai da sociedade não vem necessariamente da credibilidade. Os tempos mudaram", apontou. 

Para o jornalista, as empresas visam a produzir conteúdos interessantes para acessar o leitor, mas não o contrário. "O público compra um veículo porque acha que ele é mais ou menos crível ou por questão de identidade, mas o que a mídia vende ao seu cliente não é a informação, mas o acesso a esse público", ressaltou Torturra.

 'IMPRENSA MONARQUISTA' 

Segundo Torturra, o problema das mídias tradicionais brasileiras é a forma como os veículos que as cobrem são concentradas no país, enquanto que a mídia alternativa é mais diversa. "A República não chegou à grande imprensa, que ainda é monarquista, uma vez que são os sobrenomes que falam mais alto".

Torturra também criticou a radicalidade que a mídia alternativa pode alcançar. "Acho que o problema é que quando se assume uma narrativa com um só foco, se estabelece uma versão da realidade que o repórter da nova mídia leva ao público", disse. "Isso tem implicações muitos sérias; pode gerar discursos radicais."

Para reverter esse quadro, Amora reforça a necessidade de as novas gerações entrarem nos jornais, ocuparem os cargos e pensarem diferente do modo "monárquico" que,  na visão deles, caracteriza o atual jornalismo. 

"A forma monárquica passa dos superiores para os subordinados", apontou Amora. Segundo o repórter, a falta de diversidade faz com que o jornalismo careça de uma visão igualitária sobre o que acontece na sociedade. Além disso, afirma que muitos jornalistas, tanto da nova mídia quanto da tradicional, levam preconceitos do cotidiano para a redação. "É preciso renovar a mídia tradicional. A visão de muitos jornalistas ainda funciona sob o modelo Casa Grande-Senzala", conclui Amora.


O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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