24/06/2016

Repórteres da Agência Pública falam sobre a perseguição política em Angola

Por Luan Ernesto Duarte

As jornalistas Natalia Viana e Eliza Capai, da Agência Pública, contaram como foram perseguidas e ameaçadas pelo governo de Angola, na África, durante uma investigação sobre a atuação da Odebrecht no país, em outubro do ano passado. Durante a apuração, as repórteres descobriram uma relação direta entre a empreiteira e o regime autoritário de José Eduardo dos Santos, presidente há 37 anos.
Foto: Alice Vergueiro 
Maior empregadora de Angola, com 12 mil funcionários e 5 mil subcontratados, a empreiteira foi responsável pelas principais obras do país. Além disso, a Odebrecht ainda tem sociedade com filhos e o genro do presidente para exploração da mina de Muanga, na região de Lunda Norte. Todo ano, Emílio Odebrecht se reúne com o presidente angolano no palácio, na capital Luanda, para prestar contas sobre os negócios. 
Durante a investigação sobre um grupo de 16 jovens que foram presos pelo governo por ler um livro e acusados de conspiração para derrubar o presidente, elas passaram a ser perseguidas por agentes do regime angolano. "Quando vimos que estes jovens foram presos, fomos conversar com seus familiares. A partir disso, nós fomos perseguidas ostensivamente e acusadas de organizar manifestações", conta Natalia.


Além da perseguição, elas receberam telefonemas com ameaças de morte. Com medo do que poderia acontecer, voltaram para o Brasil com ajuda da embaixada brasileira. "No momento que nos disseram que estávamos sendo seguidas, achei que estava todo mundo louco. Não acreditava que poderíamos estar sob um regime de exceção", desabafa Eliza.
A censura é confirmada pelo ativista angolano Raúl Mandela, também presente na palestra, que atualmente mora no Brasil. "Nosso país é liderado por um grupo de criminosos. Se o regime descobre que tem um ativista trabalhando em uma determinada empresa, ele pede para demiti-lo. Se a companhia não obedecer, o governo fecha a empresa", explica Mandela. 
Sobre a atuação da Odebrecht em Angola, Natalia explica que é difícil analisar o papel da empresa no país porque há pouca informação e transparência. Mesmo com as dificuldades, as repórteres disseram  que foi importante estar no país para entender o real poder da empreiteira no local. "Estar dentro da Odebrecht, lá em Angola, foi a oportunidade de ver todo o seu império e como ela funciona lá. A empresa possui todo esse poder graças ao relacionamento com o governo", afirma Natalia.

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