24/06/2016

Imprensa atribui poder que pesquisa não tem, afirma diretora do Ibope

Por Jeniffer Mendonça

Publicar resultados de pesquisas de intenção de voto requer um trabalho minucioso pela imprensa. Na avaliação de Marcia Cavallari, CEO do Ibope Inteligência, os veículos de comunicação precisam ir além dos percentuais finais e ficar atentos a outras variáveis que compõem a coleta de dados. "A mídia não pode substituir a cobertura eleitoral pela divulgação de pesquisa", enfatizou ela no painel "Como ler pesquisas eleitorais", nesta sexta-feira (24), no 11º. Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo.

A mesa contou também com a participação do diretor de pesquisas do Instituto Datafolha, Alessandro Janoni, e foi mediada pelo jornalista Daniel Bramatti, de O Estado de S. Paulo.  A palestrante destacou que os jornalistas costumam conferir exatidão às análises ao invés de tratá-las como estimativas. "As pesquisas são diagnósticos do momento. A divulgação dos dados não impede a mudança de decisão das pessoas", pontuou.
Fotos: Alice Vergueiro

Cavallari ressaltou que é preciso observar tanto a série histórica de pesquisas quanto a margem de erro para afirmar se houve queda ou crescimento de percentual de intenções de voto atribuído a cada candidato. O aumento de um ponto no índice pode ou não ser configurado como um aspecto relevante durante a campanha eleitoral. "Tem muito mais informações para serem analisadas do que simplesmente um ranking", explicou.

Alessandro Janoni apontou para os instrumentos de coleta que podem gerar distorções. Entre eles, a forma de escolha da população nas urnas e como os nomes dos candidatos são apresentados no cartão entregue aos entrevistados. Além disso, destacou a preponderância de votos nulos e brancos devido ao acesso à informação de candidatos e o grau de satisfação com o governo. "Os intitutos têm que estar atentos aos erros do eleitor. Baixa escolaridade e renda intensificam o erro na urna eletrônica e consequentemente o voto nulo. Na região Sudeste, os votos brancos são lidos como de protesto. A rede social potencializa a consciência de classe e a opinião pública é baseada nisso".

O diretor de pesquisas do Datafolha também frisou a importância de compreensão da metodologia e da legislação eleitoral. "Duas armas importantes são a leitura do guia da ABEP (Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa) e do código do registro do TSE". No entanto, Márcia Cavallari complementa que os dados do Tribunal Superior Eleitoral estão desatualizados. "Não consideramos os índices de abstenção por causa do cadastro dos eleitores. Dizer que 8% têm grau de instrução superior não é verdade".

A Lei nº 9.504/1997 obriga que os institutos registrem junto à Justiça Eleitoral as pesquisas que serão divulgadas pela imprensa com cinco dias de antecedência da data de publicação. A legislação prevê que sejam cadastradas informações referentes à metodologia, contrantes, questionário, fatura e outros itens. Os veículos de comunicação também devem evidenciar a amostragem (número de entrevistas feitas pela pesquisa), nível de confiança (probabilidade estimada de parâmetro populacional), margem de erro e período de coleta de dados.


O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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