24/06/2016

Mulheres relatam experiência no comando de grandes redações

Por Helena Mega​



Há 30 anos no jornal O Globo, Silvia Fonseca divide o seu cargo na editoria executiva com dois homens. Entrou para a redação em uma época em que as mulheres já podiam usar calça comprida para trabalhar e, na sua visão, "nada mudou muito desde então". A maior revolução que pôde vivenciar lá dentro foi a chegada dos computadores.

Foto: Alice Vergueiro
Fotos: Alice Vergueiro
Carla Jiménez, jornalista há 26 anos, assumiu papel de chefe em 2013 na sede brasileira do El País. Antes disso, foi editora de Brasil do jornal Brasil Econômico editora-assistente do Painel de Negócios no Estadão.

Nenhuma delas enxerga a diferença de gêneros, assunto inevitavelmente abordado no painel "Mulheres no Poder", como determinante dentro das redações que chefiam.

"O que faz diferença em uma redação é ser um bom repórter", diz Silvia. Mulheres podem, assim, assumir qualquer um dos cargos lá dentro, desde que se mostrem competentes. O mesmo vale para os homens.

 Carla, que já trabalhou em diversos veículos, afirma que, se em algum momento achou que estava recebendo menos do que merecia, virou as costas para aquele local. "É a melhor coisa", diz.

 Da plateia a jornalista Elvira Lobato contou que se algum dia foi descriminada por ser mulher, o agressor perdeu o seu tempo. Isso nunca a impediu de realizar o seu trabalho, o qual lhe rendeu uma homenagem no primeiro dia do Congresso.

Segundo dados de 2013 da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), dos 145 mil profissionais de imprensa do país 64% são mulheres. Dentro do Grupo Globo (que soma os jornais cariocas O Globo e Extra), elas são 45%.


"O assédio acontece em toda profissão. Não tem outro instrumento a não ser denunciar", afirma a editora-executiva. Para ela, o cargo de chefia é conquistado através da preparação do profissional e é conquistado por esforço. Não existe uma fórmula.

A editora-chefe do El País compartilha da mesma opinião. Ela reconhece que, "sem querer", pode ter se tornado uma exceção ao estar em uma posição de poder. Mas não enxerga uma reserva de cargo para gêneros específicos dentro do mercado.


 FORA DA REDAÇÃO

Se nas redações o machismo não é visto por elas como um grande empecilho, nas ruas a história é diferente. Letícia Duarte, repórter do Zero Hora e diretora da Abraji que mediou o painel, afirmou que tomou um cuidado extra com as suas roupas para cobrir a crise dos refugiados no Oriente Médio.

Mas ela não precisa ir tão longe para precisar se proteger. Cantadas e tentativas de assédio são recorrentes nas relações de mulheres jornalistas com suas fontes. Diversos casos foram citados pela repórter da ESPN, Gabriela Moreira, também palestrante do Congresso.

"Não vamos deixar de contar histórias. Temos que conseguir nos posicionar para que isso nunca nos impeça", defende Letícia.

Nesse contexto, Carla aponta que o único saldo positivo do ano de 2015, marcado pela intolerância de discursos e pela polarização política, foi a consolidação de um movimento feminista autêntico e definitivo no país. "Estamos indo no caminho certo", conclui.​



O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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