23/06/2016

Postura do repórter pode influenciar forma como cérebro compreende e armazena notícias

Por Ariane Costa Gomes


Diariamente temos acesso a uma grande quantidade de notícias. Somos informados sobre o que acontece no mundo dos esportes, da política, da cultura, entretenimento etc. Mas, já parou para pensar como essas informações são armazenadas em nossa memória ou em como despertam nossos sentimentos? 

Essas foram algumas das questões abordadas no painel "O cérebro e a notícia: fatos, versões e interpretações" nesta quinta feira (23) no 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji, realizado em São Paulo.
Foto: Alice Vergueiro
Mediado pelo jornalista e professor Marcelo Träsel, o painel foi conduzido pelos palestrantes André Martins, professor da EACH-USP (Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo) e André Palmini, chefe do serviço de Neurologia do Hospital São Lucas da PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul). 

O modo como interpretamos uma informação envolve uma série de fatores que vão além do que está sendo transmitido, segundo os palestrantes.

A linguagem não verbal e a empatia, capacidade de colocar-se no lugar do outro, presente na mensagem transmitida pode interferir na forma como a compreendemos e sentimos a notícia.

Uma imagem impactante ou um repórter com expressão assustada transmitindo uma informação, por exemplo, tem um peso significativo em nosso cérebro comparado quando lemos o que está sendo noticiado. 

A expressão, tom de voz e a postura do repórter também influenciam o compreendimento da notícia pelo público. Além disso, a empatia também é capaz de determinar se a informação será algo passageiro ou um conhecimento adquirido. 


Essa relação de empatia e a mensagem que a linguagem não verbal nos transmite é o que faz com que algumas notícias fiquem armazenadas em nossa memória, segundo Palmini. "A capacidade de linguagem não verbal impacta nosso sistema emocional", afirma.

A memória pode ser construída e reconstruída muitas vezes influenciada por aspectos externos e sociais como apontou o neurologista Palmini. Nesse construção da memória, misturam-se aspectos individuais e coletivos a partir das relações estabelecidas em sociedade. 

"O medo de não pertencer ao grupo nos leva a pensar que o julgamento do grupo é mais correto do que o individual", Palmini.

ERROS E ACERTOS

O cérebro possui uma capacidade limitada de armazenar informações com dois sistemas de funcionamento: um que faz uma avaliação rápida com regras simples de aproximação e permite decisões mais rápidas e outro que analisa de forma mais criteriosa e lógica. 

Dessa forma, segundo alerta Martins, é preciso ter cuidado com o nosso próprio cérebro que, às vezes, pode nos levar ao erro. "Confiamos muito mais na cabeça da gente ou de um grupo do que deveríamos".

Martins aponta para o procedimento de escolha de fontes confiáveis para compor uma reportagem.
"Ao escolher uma fonte que reforce o seu posicionamento, o repórter acaba fazendo uma análise incompleta sobre o assunto pois não contrapõem as informações divergentes", diz. Apresentar esses dois lados da informação é importante para que o público possa fundamentar sua opinião considerando os dois lados, segundo o pesquisador.

Martins aponta a importância de analisar cada questão de forma séria e independente de modo que haja mistura de opiniões. "Sempre tem algo que gostamos mais,  mas é inevitável não tomar lados é importante buscar argumentos que sejam contrários a sua posição", sugere o professor.


O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.


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