23/06/2016

Cobrir política em tempos polarizados é desafiador

Por Tiago Aguiar


O último ano na política nacional foi marcado pela continuidade - se não acirramento - da polarização política, dessa vez entre apoiadores e não apoiadores do impeachment. A mesa "Cobertura política em clima de fla-flu", nesta quinta-feira (23), se propôs a discutir os desafios da cobertura jornalística nessas condições, com a presença de Marcelo de Moraes, jornalista de O Estado de S.Paulo, e Daniel Santoro, editor de política do jornal Clarín, para dar a perspectiva argentina. O país não viveu um processo de impeachment, mas o cenário de radicalização política é análogo.



O primeiro destaque dado - tanto por Santoro, quanto por Moraes - foi às tensões que os repórteres e editores sentem nas redações. "Mesmo com cobertura política e cobertura especializada nas investigações, haviam dias como a semana da condução coercitiva do Lula em que o volume era maior do que uma redação profissionalizada poderia lidar. Trabalhar com tamanho volume de informações com redações cada vez mais enxutas foi e é um desafio para todas as principais redações" afirmou o jornalista do Estadão.

Foto: Alice Vergueiro
Santoro, destacando a frase na lousa, complementou: "as pressões sobre jornalistas provocam a autocensura", afirmou, e em seguida citou diversos casos de perseguições a jornalistas. Segundo dados do Fopea (Foro de Periodismo Argentino), nos últimos dez anos ataques a jornalistas foram crescentes. Para ele, "a estratégia dos governos era assassinar a reputação de jornalistas", o que geraria uma censura indiretamente.
Jornais governistas também foram problematizados por ambos, inclusive como meio de fazer ataques pessoais, com exemplos citados nos dois países. Os dois concordaram que as críticas devem se limitar à qualidade das informações veiculadas. "Não conteste com a lógica da guerra", foi outra frase escrita na Lousa por Santoro para frisar a importância da disputa pela informação a partir de preceitos éticos.

Ainda sobre a situação política do Brasil, Moraes ponderou  que sempre a situação é mais visada para ataques do que a oposição. "O governo é sempre mais vidraça, não tem jeito. O Temer vive isso agora". Moraes ainda complementou dizendo que a polarização não ajudou nenhum dos dois."E no final o fla-flu deu Vasco", disse se referindo ao governo interino do PMDB e a polarização ser principalmente entre PT e PSDB. O jornalista ainda citou dois cadernos especiais - que foram vencedores do Prêmio Esso - publicados entre 2014 e 2015 como saídas para mudar de assunto e dar um respiro.

Sobre a Argentina, Santoro, que não se considera "macrista" (referência ao atual presidente Maurício Macri), disse que o monopólio de companhias telefônicas é muito mais grave - ao responder sobre a Lei dos Meios, aprovada pelos Kirchner e que tentou acabar com o monopólio dos veículos de comunicação - e que não havia uma preocupação com a sustentabilidade a longo prazo dos veículos (mais de 180, segundo ele) que eram kirchneristas.

Letícia Naísa, jornalista congressista e espectadora da palestra, ponderou que tanto Cristina Kirchner quanto Dilma Rousseff sofreram com sexismo nas coberturas. Ambos os editores concordaram e Moraes ainda citou casos de machismo contra colegas de profissão.

Ao final, Moraes pontuou que um bom modo de evitar a inserção da polarização nas coberturas é através de uso de uma linguagem adequada. "Nós nunca vamos usar a palavra 'golpe' para se referir ao impeachment, pois é uma palavra carregada de juízo de valor. E não usamos 'presidenta' pelo mesmo motivo, até porque não é uma palavra que a maior parte da população adotou", concluiu.


O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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