24/06/2016

Coberturas extremas exigem contato direto com a fonte, dizem repórteres de internacional

Por Bianca Baptista


Antes de viajar para o Irã pela primeira vez, a jornalista Adriana Carranca comprou um Niqab preto, uma vestimenta islâmica. Ao desembarcar, toda coberta, foi ao encontro da tradutora local que, para sua surpresa, a esperava de calças jeans e All Star rosa. 


Foto: Alice Vergueiro
 A quebra de preconceitos e o contato com outras culturas foram alguns dos assuntos abordados em "Cobertura extrema: como escrever sobre terrorismo". A palestra das jornalistas Adriana Carranca, de O Estado de S.Paulo e O Globo e Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo, aconteceu na tarde desta sexta-feira (24) no 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji.

"São vivências como essa que foram mudando minha visão", conta Carranca, que já cobriu conflitos no Afeganistão, Paquistão, Israel, Palestina, Irã e Egito. Quando esteve em Gaza, a repórter ficou hospedada na casa de uma família. "Esse tipo de cobertura exige um mergulho, uma relação, um comprometimento maior", explica. Um dia, numa conversa casual, ela descobriu que um dos parentes da família era membro do Hamas. "O convívio que eles possuem com esse tipo de prática é o mesmo que os brasileiros com filhos envolvidos no tráfico de drogas têm". 

 Patrícia Campos Mello concorda com a importância da convivência para fazer esse tipo de cobertura. A jornalista cobriu a Guerra no Afeganistão junto aos soldados dos Estados Unidos. Apesar de proibida de conversar com eles sobre política e guerra, ela conta que o contato diário com os militares acabou possibilitando diálogos mais abertos: "Você desenvolve relacionamentos com as pessoas. Grande parte dos soldados tinha consciência da estupidez que era aquela guerra. Ter conversas reais na cobertura foi muito legal". 

O Estado Islâmico, assunto da vez no Oriente Médio, também foi discutido. Quando esteve na Síria pela última vez, Carranca presenciou um ataque do grupo: "Estávamos no meio de uma entrevista quando as explosões aconteceram. Naquele dia morreram mais de 100 pessoas, sendo que 11 do lado da gente". 

Mello afirma que cobrir o Estado Islâmico é complicado: "É difícil contar a história do ponto de vista deles. Os jornalistas não têm acesso". As repórteres explicam que a única forma de cobrir esse assunto é por meio dos habitantes de cidades invadidas. "Fora os jornalistas-cidadãos, a gente ainda não tem acesso, não sabe o que é o Estado Islâmico", justifica Carranca. 

Carranca criticou a questão do uso de imagens cedidas pelo próprio grupo: "Eles possuem uma agência de notícias, investiram na máquina de propagandas. E a gente caiu nessa ao usar essas imagens".

Também foi abordada uma das tantas diferenças entre a imprensa do Brasil e a dos Estados Unidos. Uma das dificuldades da nossa cobertura, de acordo com a jornalista, é a língua portuguesa. "O alcance em inglês é muito diferente. Há mobilização, as pessoas se importam". 

Uma das vantagens da mídia brasileira seria a liberdade de não cobrir o jornalismo factual, o hard news, já que, em nosso país, as agências de notícia fazem esse papel. "Podemos cobrir a parte mais humana. Quando somos enviados, aproveitamos para mostrar o que o leitor não costuma ver", conta Carranca. 


O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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