27/06/2019

A geração que aposta na investigação

Projetos de TCC denunciam crimes e desigualdades

Por Luísa Cortés 
Edição Leandro Melito
Maria Vitória Ramos apresentou o livro-reportagem Indigentes (Foto: Guto Marcondes)

A vida da população LGBT em presídios, identidade racial, destino dos mortos indigentes, informações sobre a doença rara adrenoleucodistrofia - popularizada pelo filme O óleo de Lorenzo (1992), de George Miller. 

Esses são os temas de alguns Trabalhos de Conclusão de Curso de alunos recém-formados de jornalismo, apresentados na mesa Mostre e conte:a nova geração de jornalistas, do 14° Congresso da Abraji.

Felipe Sakamoto e Lucas Cabral, da Cásper Líbero, apresentarem seu livro-reportagem Transviados no cárcere, que conta histórias das pessoas LGBT que vivem em presídios em São Paulo e Minas Gerais.

O tema foi definido por ser “um recorte não tão comum sobre o tema LGBT”, assunto de interesse dos jornalistas. Foram 40 fontes e 25 visitas aos presídios, realizadas a partir da Pastoral Carcerária. Mas as dificuldades não pararam por aí: eles ainda tiveram que se adaptar ao universo carcerário, a começar por deixar de lado os academicismos da universidade. 


Mas você se identifica como gay ou bissexual? “Nada disso, eu sou mona”,
alguns entrevistados respondiam. A chamada “cela das monas”, como é conhecida a cela do presídio destinada aos detentos que se declaram LGBT, é um universo com regras e funcionamento próprio.


Lá, os talheres e cigarros são próprios, nunca divididos com outros detentos, devido ao estigma ainda presente do vírus HIV. Os moradores desse espaço são pagos para transportar drogas e celulares de facções, usualmente escondidos nos ânus, e são eles os que se prostituem nos presídios masculinos. 


Por se tratar de dois jornalistas homens, o contato com os presídios femininos
foi mais custoso -- muitas tinham receio de compartilhar informações mais íntimas, mas presentes no cotidiano de suas vidas. Por isso, o livro circula mais no universo dos presídios masculinos.
 

Destino dos mortos
Maria Vitória Ramos apresentou o livro-reportagem Indigentes: o Estado que enterra sem avisar, realizado com Victoria Pires, que não esteve presente. O livro aborda histórias de pessoas enterradas pelo Estado como indigentes. É um assunto tão invisibilizado que há apenas uma especialista nele, em todo o Brasil, segundo a jornalista: a promotora de justiça Eliana Vendramini. 

Na apresentação, contou das vezes que visitou o cemitério com valas
abertas, crânios e pedaços de ossos espalhados pelo chão em que pisava. “A divisão entre quem é indi e entre quem é gente é clara, consciente e cruel”, traz em seu livro.


Também contou histórias dos familiares que há décadas procuram um filho, um irmão, alguém amado que um dia desapareceu. A polícia enterrou e esqueceu de avisar. “O luto tem um final. O desaparecimento é constante”, conta Maria Vitória, formada pela Faculdade Cásper Líbero.

Esse desaparecimento enfrenta inclusive questões políticas percebidas pela jornalista. Maria Vitória Ramos foi avisada diversas vezes sobre o risco de denunciar essa realidade e teve dúvidas sobre até que ponto poderia ir.

Identidade racial

Outro tema abordado foi o colorismo, trazido pela jornalista Catharina Rocha com a reportagem multimídia Tons do Brasil. Contou a história de pessoas que têm dificuldade de definir sua raça, ouvindo ao longo da vida variações entre “negra”, “parda” ou até “moreninha”. Era o caso de Gicelle de Souza, uma das personagens da reportagem, que percebeu mudanças em como as pessoas a viam a partir do momento em que mudou de estado e, mais tarde, quando decidiu alisar o cabelo.

A realidade era outra para Layla Leonel, outra entrevistada que pertencia a uma classe social mais alta, filha de pai negro retinto e mãe branca, loira, de olhos claros. O site é repleto de minipodcasts, minidocumentários e infográficos que ajudam a explicar um tema tão comum em um país miscigenado como o Brasil, com tantas combinações possíveis.


Ela ainda adentrou questões que surgiram ao ouvir das histórias dos personagens e os especialistas que compõem a reportagem. Como definir quem pode participar de processos seletivos com cotas raciais? E quem pode falar sobre o racismo e sobre o preconceito de raça? 


Como as percepções sobre raça são variadas em diferentes locais, no Brasil e nos Estados Unidos, no Paraná e na Bahia?
 

Doença rara
Plínio Lopes, formado pela UFPR, apresentou seu webdocumentário Depois de Lorenzo, que traz perfis de seis pessoas que têm a doença, e de seus familiares, além de informações sobre seus sintomas, causas e tratamento. São 19 personagens; entre eles,cinco especialistas. 

Uma oportunidade de entender o jornalismo de saúde como segmento
do jornalismo científico, segundo o recém-formado, além de exercer o jornalismo de uma forma social.


O 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Google News Initiative, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Itaú, UOL, Twitter, Estadão, Folha de S.Paulo, Poder 360, Crusoé e Aos Fatos; apoio de mídia de Correio (BA), CBN, Grupo RBS e SBT; e apoio institucional de Abert, ANJ, Aner, Comunique-se, Consulado dos Estados Unidos, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Insper, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, Meio, Oboré Projetos Especiais, Ogilvy, Portal Imprensa, Revista piauí, Textual e Unesco. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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