30/06/2019

Série realidades: desafios do jornalismo fora dos grandes centros

Jornalistas falam das especificidades das coberturas regionais

Por Gabriela Silva de Carvalho, Matheus Menezes e Thalita Monte Santo
Edição Cristiane Paião


Nayara Felizardo (The Intercept Brasil), Fábio Oliva (Blog do Fábio Oliva/Abraji) e Pedro Sergio Ronco (Blog do Ronco). Foto: Mariana Soares

Pedro Sergio Ronco, do Blog do Ronco, ao denunciar desvios de verba da merenda escolar e de combustível na prefeitura de Ribeirão Bonito, interior de São Paulo, sofreu represálias, inclusive ameaça de morte. Seu depoimento no painel sobre a imprensa longe dos grandes centros durante o 14º Congresso da Abraji foi contundente. 

“Nos deparamos com uma corrupção deslavada. Perguntamos ao prefeito onde ele colocava o combustível, pois não tinha reservatório. Ele disse que abasteciam e distribuíam para outros setores da prefeitura. Ao apurar, nos deparamos com um documento falso que revelava até um desvio na verba de merendas escolares”, relembra Ronco. 


Ao sofrer ataques, ele recorre à lei: “se o ministério público não agir, você passa por cima e vai para a corregedoria”, aconselhou. Para ele, a cobertura jornalística na imprensa local é uma questão não resolvida quando o assunto é corrupção. Com a ajuda de profissionais de diversas áreas da região, criou a ONG Amarribo Brasil e, hoje, atuam juntos fiscalizando o poder público e levando as denúncias até a Câmara Municipal, a Promotoria de Justiça e ao Tribunal de Contas do Estado.

Formando redes
Nayara Felizardo, repórter do The Intercept Brasil, também participou da mesa e comentou sobre a dificuldade de se realizar reportagens longe dos grandes centros. “O primeiro desafio é conseguir fontes. Nesses lugares, nem telefone fixo tem”, diz. Além disso, “mostrar que aquilo é relevante, que aquele assunto do interior é importante mesmo sendo no interior é a parte mais difícil”, acrescenta. 

“Quando um evento não ganha repercussão, ele morre”, reforça Nayara. “Os critérios de noticiabilidade são diferentes quando o fato ocorre fora do eixo Rio - São Paulo. A gente só olha para o nordeste quando tem seca; só olha para o norte quando tem algum problema na Amazônia”, relata. 

Sobre a participação do público, o jornalista e advogado Fábio Oliva, mediador do painel, afirma: “Você tem que trazer a comunidade para o seu lado. É muito importante que você tenha essa capacidade de mobilização”. Ao final do encontro, Nayara Felizardo ainda ressaltou a necessidade de trabalhar o jornalismo de forma colaborativa. “A imprensa tem que se ajudar. Há uma necessidade de formar parcerias. A sua reportagem é sua defesa”, conclui. 

Confira no vídeo dicas da jornalista para quem faz cobertura fora dos grandes centros:



O 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Google News Initiative, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Itaú, UOL, Twitter, Estadão, Folha de S.Paulo, Poder 360, Crusoé e Aos Fatos; apoio de mídia de Correio (BA), CBN, Grupo RBS e SBT; e apoio institucional de Abert, ANJ, Aner, Comunique-se, Consulado dos Estados Unidos, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Insper, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, Meio, Oboré Projetos Especiais, Ogilvy, Portal Imprensa, Revista piauí, Textual e Unesco. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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