27/06/2019

Jogo sujo

Jornalistas revelam esquema da CBF para vender direitos de transmissão do Brasileiro

Por João Vitor Reis, Luana Dias e Matheus Menezes
Edição Tiago Angelo 
Cátia Seabra (Folha de S. Paulo) ressalta a necessidade de ser cuidadoso e claro com as  fontes. Foto: Alice Vergueiro

A repórter especial da Folha de S. Paulo, Cátia Seabra, recebeu um convite para tomar café com uma fonte antiga, durante a campanha eleitoral de 2018. A jornalista aceitou a proposta prontamente e, no decorrer da conversa, recebeu um papel com informações que culminariam em uma série de reportagens sobre um drible na licitação, encabeçado pela CBF, dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro.


Para ajudá-la a apurar a informação, contou com o auxílio de alguns jornalistas, entre eles Diego Garcia, também da Folha. Em entrevista Cátia afirmou que a postura de seriedade de Garcia quanto ao trabalho jornalístico foi o que os uniu.





“Eu sou muito cuidadosa na relação com as fontes. A gente tem que fazer tudo certo, deixar tudo claro, dentro da linha, porque eu acho que é o perfil de trabalho do jornalista”, considera.   

Foto: Alice Vergueiro

Na rede de Offshores


A série de reportagens da Folha tratou da venda sigilosa da BR Foot Mídia, empresa que assinou com a CBF o contrato de transmissão internacional do campeonato brasileiro sem ter participado do processo de licitação, para o fundo de investimentos chamado Futbol Holding (FanFoot).


A FanFoot tem sede em paraíso fiscal, em uma pequena casa de madeira onde consta ser o endereço de 125 mil empresas em Lewes, cidade costeira com cerca de 2700 habitantes no condado de Sussex, no Estado americano de Delaware. 


Pelas leis do Estado a burocracia para o registro é mínima, tanto pela rapidez no processo de incorporação das empresas quanto na manutenção do sigilo de seus proprietários, inclusive com os não residentes neste Estado. 


Diversas pesquisas realizadas nos EUA atribuem a Delaware definições tais como “Nova Suíça”, “líder em corporações secretas em paraísos fiscais”, “sigilo mais rigoroso do mundo”. 


“O estado de Delaware tem cerca de 950 mil habitantes mas abriga mais de um milhão de empresas. Além do sigilo, as companhias são atraídas pela inexistência de impostos sobre vendas, ausência de valor mínimo de capital inicial, não necessidade de comprovação de residência de acionistas e um sistema jurídico considerado próprio para lidar com litígios empresariais”, de acordo com a reportagem da Folha.

Rivalidade além dos campos


A CBF não concedeu nenhuma resposta às alegações feitas pela reportagem e em diversos momentos buscou atrapalhar o andamento das investigações. A atitude da confederação foi pressionar a redação da Folha a fim de derrubar a investigação. Segundo os repórteres, esse é um comportamento típico das assessorias de imprensa dos clubes. “A assessoria de futebol se acha no direito de ignorar os nossos pedidos. Aí quando saí a reportagem, eles ficam loucos”, expõe Seabra.


Pela dificuldade de conseguir uma declaração oficial no ambiente esportivo, muitas vezes as matérias ficam semanas embargadas. Os repórteres garantem que trabalhar de perto com a comunicação da confederação os ajudou a enxergar a organização de outra maneira. “Ela é uma entidade privada. Se ela quer adotar o sigilo ou fazer tudo errado, é escolha dela mas dizer que é transparente, não é”, declara Garcia.


Além de todos esses entraves, trabalhar com jornalismo investigativo no futebol oferece uma outra dificuldade: a polarização da torcida. “No ambiente esportivo, há muito mais casos de ataque do público”, salienta Gabriela Moreira, repórter da Rede Globo. Assim como na política, as discussões esportivas também estão aquecidas.


Seabra, que trabalhou com investigação política durante toda a sua carreira, percebe um acirramento entre as duas esferas: a política e o futebol. “A gente tem meio que um Fla-Flu. O debate está bem apaixonado”, diz. Já Garcia se entristece ao deparar com casos de corrupção envolvendo o esporte, por ser um fã ferrenho de futebol. “Por amar muito o futebol, eu fico indignado. Então eu tento fazer a minha parte: denunciar”, conclui.


O 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Google News Initiative, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Itaú, UOL, Twitter, Estadão, Folha de S.Paulo, Poder 360, Crusoé e Aos Fatos; apoio de mídia de Correio (BA), CBN, Grupo RBS e SBT; e apoio institucional de Abert, ANJ, Aner, Comunique-se, Consulado dos Estados Unidos, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Insper, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, Meio, Oboré Projetos Especiais, Ogilvy, Portal Imprensa, Revista piauí, Textual e Unesco. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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