28/06/2019

Sensibilidade e excessos na cobertura de tragédias

Em Mariana, 19 pessoas morreram, e em Brumadinho foram 246 vítimas fatais

Por Beatriz Santoro e Natalia de Souza
Edição Pâmela Ellen
 Amanda Rossi (BBC Brasil). Foto: Natália de Souza

Veterana em diversos tipos de coberturas, a repórter da BBC Amanda Rossi, afirma que “a sensibilidade é o que aproxima e provoca empatia nos leitores”, em especial nos casos de coberturas de tragédias.

O consenso entre os jornalistas participantes da palestra é de que vítimas como as afetadas pelos rompimentos de barragens em Mariana e Brumadinho, devem ser tratadas com sensibilidade e respeito durante as reportagens. 




Por mais elementar que pareça, não foi o que a jornalista presenciou. "Vi muitos colegas jornalistas não fazendo isso. Uma colega da rádio, por exemplo, gravou uma mãe gritando de desespero", conta.


Para Fred Bottrel, subeditor do jornal Estado de Minas, o repórter não pode perder a mão na questão emocional, "a sensibilidade não pode ser de mais nem de menos". Bottrel foi um dos responsáveis pelas reportagens especiais Vozes de Mariana, de 2015 e Vozes de Brumadinho, de 2019, que focaram nas histórias das pessoas atingidas, em primeira pessoa. A inspiração veio da obra Vozes de Tchernóbil: Crônica do Futuro, da jornalista bielorrusa Svetlana Aleksiévitch.

Ao mesmo tempo que existe toda essa dor vivida pelos mineiros, há também pessoas que inventam histórias para os jornalistas. Por esse motivo, é necessário que o profissional apure com cuidado as informações, em prol de uma maior veracidade no trabalho jornalístico. "No grupo de whatsapp dos bombeiros, pessoas estavam se passando por eles, dando informações", explica a repórter Amanda Rossi.

Ainda seguno Rossi, é preciso usar técnicas de apuração, como pedir mais detalhes das histórias, checar com outras pessoas e se aliar ao auxílio tecnológico. Como exemplo, para contar a história da caminhoneira da Vale que fugiu de ré do tsunami de lama, a repórter utilizou o Google Earth e alguns vídeos.

Os jornalistas também comentaram sobre os impactos pessoais que os eventos tiveram sobre eles. Rossi conta que depois de um dia desgastante durante a cobertura em Brumadinho, ela foi para a piscina do hotel. "Quando eu mergulhei, subi desesperada. A sensação era que eu estava na lama", lembra.

Conversar com as vítimas foi uma forma de repensar valores, para Fred. "A dimensão do que é importante para aquela pessoa que morava no interior de Minas é muito diferente do que é importante para a Vale, que agora quer dar dez mil reais para ela", relata o jornalista. E afirma acreditar que tragédias como esta voltarão a se repetir.

O 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Google News Initiative, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Itaú, UOL, Twitter, Estadão, Folha de S.Paulo, Poder 360, Crusoé e Aos Fatos; apoio de mídia de Correio (BA), CBN, Grupo RBS e SBT; e apoio institucional de Abert, ANJ, Aner, Comunique-se, Consulado dos Estados Unidos, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Insper, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, Meio, Oboré Projetos Especiais, Ogilvy, Portal Imprensa, Revista piauí, Textual e Unesco. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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