29/06/2019

Programa Tim Lopes: investigação aponta que morte de radialista foi encomendada por R$ 5 mil

Após denúncias contra a administração local, Jefferson Pureza foi assassinado em Edealina-GO 

Por Luana Nunes e Thalita Monte Santo 
Edição: Caroline Oliveira e Cristiane Paião
Angelina Nunes (ESPM/Abraji). Foto: Alice Vergueiro
17 de janeiro de 2018. Jefferson Pureza, 39 anos, estava deitado na varanda de casa quando foi morto com dois tiros. Dois homens chegaram em uma moto, e já entraram atirando. No caso que aconteceu em Edealina, Goiás, o radialista foi morto dentro de casa. Foi socorrido, mas morreu no local.

Ele trabalhava em uma rádio comunitária, A voz do povo, que inclusive já havia sofrido incêndios e outros ataques. O motivo? Denúncias contra a administração local. 


É justamente para ir além das investigações policiais e para dar continuidade às denúncias que os jornalistas assassinados, sobretudo, em cidades do interior do país vinham fazendo que o Programa Tim Lopes foi criado pela Abraji. “A gente trabalha para manter o jornalismo, os comunicadores atuando e impedir esse tipo de crime”, explica Angelina Nunes, coordenadora do programa que não apenas investiga as condições das mortes dos profissionais, mas também tem o objetivo de treinar outros jornalistas para darem continuidade ao trabalho que estava sendo realizado e que, por este motivo, incomodava os mandantes dos crimes. 

Segundo Angelina, quando esses comunicadores são assassinados há uma predisposição dos mandantes de calar a voz da imprensa, de impor o medo, de não deixar que os profissionais levem ao público coisas que estavam levando. De acordo com a jornalista, a maior parte dos assassinatos estão ligados a crimes políticos revelados por radialistas. Geralmente, desvio de verba, licitações fraudulentas, obras inacabadas. 

"Durante a investigação é que foi descoberto que o caso havia sido negociado por R$ 5 mil reais. A gente esteve no local duas semanas depois da morte, então a gente já chegou em uma cidade onde os ânimos estavam muito acirrados e havia também o que a gente chama de lei do silêncio, porque os moradores têm medo de falar, medo de se comprometer", relata Angelina. 

O Brasil está entre os dez países mais perigosos do mundo para jornalistas. É o que aponta um relatório publicado pela Unesco em maio de 2019. Entre 1995 e 2018, 64 profissionais de imprensa foram mortos, de acordo com o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). 

Outro caso exemplar é o do radialista Gleydson Carvalho que trabalhava na Rádio Liberdade FM, em Camocim, no Ceará e foi morto ao vivo em 2015. “A gente está falando de uma realidade onde comunicadores estão muito vulneráveis”, explica Angelina. 

Protocolos de segurança 
Angelina ressalta que é preciso cuidado para investigar as mortes. Em campo, é preciso saber onde e como entrar e sair de locais delicados e onde ocorrem os crimes e trazer o material com segurança. “Você não entra com a polícia. Repórter é repórter, polícia é polícia e bandido é bandido”, ressalta Angelina. 

Continuar o trabalho faz parte do processo. Quando esses comunicadores são assassinados, há uma predisposição dos mandantes de calar a voz da imprensa, de impor medo e não deixar as informações irem a público. 

Segundo ela, as denúncias geralmente são sobre desvio de verbas, licitações fraudulentas e obras inacabadas. Ela destaca que também faz parte do Programa seguir investigando as denúncias. “A notícia não morre. Se aconteceu um assassinato na cidade, depois de seguir todo o protocolo, a gente segue investigando”, conclui a coordenadora. 

O 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Google News Initiative, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Itaú, UOL, Twitter, Estadão, Folha de S.Paulo, Poder 360, Crusoé e Aos Fatos; apoio de mídia de Correio (BA), CBN, Grupo RBS e SBT; e apoio institucional de Abert, ANJ, Aner, Comunique-se, Consulado dos Estados Unidos, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Insper, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, Meio, Oboré Projetos Especiais, Ogilvy, Portal Imprensa, Revista piauí, Textual e Unesco. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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