28/06/2019

Apuração independente do caso Marielle colabora para imparcialidade das investigações

Jornalistas contam bastidores da cobertura sobre o assassinato da vereadora e desdobramentos do caso após a publicação das matérias 

Por Gabriela Silva de Carvalho e Carlane Borges 
Edição Leandro Melito

“Ninguém imaginava que a 5º maior vereadora negra do Rio de Janeiro iria ultrapassar as fronteiras do Brasil”, afirma Vera Araújo (O Globo) ao falar sobre os bastidores da apuração do assassinato da vereadora Marielle Franco, hoje (28), no 14º Congresso da Abraji. 

Eleita pelo PSOL, Marielle utilizou seu mandato para denunciar  violações de direitos humanos nas periferias do Rio de Janeiro, além de representar no parlamento carioca a defesa dos direitos da população negra e LGBTQI+.
No Dia Internacional do Orgulho LGBTQI+, completam-se 471 dias sem saber quem foi o mandante e a motivação para o crime que interrompeu a trajetória política de Marielle e vitimou também seu motorista Anderson Gomes. 

O material da investigação ainda é insuficiente para chegar a uma conclusão. Chico Otávio que trabalhou junto com Vera na apuração do caso para o jornal O Globo, considera que um dos principais obstáculos é a omissão de informações . “Todo mundo com quem falamos, sentimos que não está contando tudo. Desde polícia, passando pelo Ministério Público e pelo partido político dela. ”, afirma o jornalista.


 Embora pareça estagnado, muitas questões foram desencadeadas a partir do processo de análise do caso, como até mesmo outras provas e fatos. Allan de Abreu, repórter da revista Piauí, explorou esses desdobramentos durante a matéria Metástase, que apura como o inquérito e as provas do caso foram constituídos. 

“Eu ouvi policiais, promotores, a Vera Araújo e o Chico Otávio - repórteres de O Globo - que se tornaram personagens com sua atuação. Isso para mostrar o estado de corrupção da polícia e da ação das milícias”, relata Allan. 

Essas iniciativas vindas da imprensa foram os pontos chave para encontrar provas e testemunhas. Segundo Vera Araújo, “eles fizeram o trabalho que a polícia deveria ter feito, mas não fez”. 

Uma semana depois da execução da vereadora, Araújo foi à cena do crime. “Busquei testemunhas, fui um pouco antes para saber quantas pessoas passavam pelo lugar, como era a luz. É o básico e ninguém fez isso”, explica a jornalista. 

A apuração sobre o caso adquiriu mais provas a partir da sua ligação com a polícia e as milícias, as quais ganharam muita visibilidade. “Isso acabou abrindo a questão do crime organizado, que ninguém conhecia”, afirma Vera Araújo. 

O miliciano Lonnie Lessa, atirador na noite do assassinato de Marielle Franco, atuava junto ao ex-capitão Adriano Magalhães da Nóbrega, considerado um dos fundadores do “Escritório do Crime”, considerado um escritório especializado em matar. 

Para Sérgio Ramalho, repórter do The Intercept Brasil, milícia não seria a palavra certa para descrever o que, na verdade, é uma organização criminosa. “Eles territorializam e passam a cobrar pelos serviços: o gatoNet, o valor do botijão de gás, controlam a prostituição. Esses grupos são vaidosos, têm até nomes emblemáticos, como é o caso da “Liga da Justiça”, explica Ramalho.

Por conta da apuração jornalística, surgiram entraves entre os repórteres e os órgãos responsáveis pela investigação. A exemplo disso, está o testemunho de Rodrigo Ferreira, o “Ferreirinha”, tratado como testemunha chave por um tempo, que foi plantado.

“É óbvio que toda investigação tem que ter um sigilo, porque você não pode atrapalhar o trabalho.Em uma investigação que se fecha tanto como o caso Marielle, começa-se a ter informações que não necessariamente são reais, elas podem até estar sendo plantadas ali”, observa Sérgio Ramalho sobre a tentativa de obstrução no inquérito. 

 Consequência de acusações e provas falsas, Orlando de Curicica, já preso anteriormente, passou a ser investigado. Paralelamente, com a falta de acesso ao caso e demora nas investigações, jornalistas passaram a ter dificuldade de entrevistá-lo dentro da prisão. 

“A gente estava todo tempo tentando manter um diálogo permanente com os investigadores e a todo instante eles diziam assim: olha, Vera e Chico, a gente vai resolver esse caso. Daqui a pouquinho o Orlando vai fechar uma delação, a gente está negociando com ele ”, pontua Chico Otávio sobre as tentativas de saber mais sobre o caso. 

 Ao longo das semanas os investigadores continuavam com o mesmo discurso, o que levou os jornalistas a tentar uma entrevista direta com Orlando de Curicica. A ideia inicial era que a entrevista fosse presencial, mas ela foi autorizada apenas por escrito. “Mandamos 17 perguntas por escrito. O Orlando respondeu. E quando saiu a entrevista foi bombástica”, conclui Chico.

O 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Google News Initiative, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Itaú, UOL, Twitter, Estadão, Folha de S.Paulo, Poder 360, Crusoé e Aos Fatos; apoio de mídia de Correio (BA), CBN, Grupo RBS e SBT; e apoio institucional de Abert, ANJ, Aner, Comunique-se, Consulado dos Estados Unidos, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Insper, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, Meio, Oboré Projetos Especiais, Ogilvy, Portal Imprensa, Revista piauí, Textual e Unesco. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Nenhum comentário:

Postar um comentário