27/06/2019

"A gente pega o barco e some", conta jornalista ameaçado na Amazônia

Profissionais falam sobre as dificuldades para exercer a profissão na região interiorana do Norte do país

Por Gabriela Neves, Vitória Macedo
Edição Pâmela Ellen

Felype Adms (WD Comunicações), Jaime Júnior e Elvira Lobato (Foto: Guto Marcondes / Abraji) 
Na Amazônia, o jornalismo tem a mesma essência do realizado nos grandes centros, como São Paulo e Rio de Janeiro, mas algumas dificuldades são bem diferentes. É o que ressalta Felype Adms, repórter da WD Comunicações, afiliada da Record em Altamira - PA. De forma humorada, diz que ao invés de ir à delegacia, “lá a gente pega o barco e some”. Falta respaldo: em alguns lugares, não há poder do Estado, não há polícia, não há Ministério Público, não há quase nada. Resultado: o crime impera.

Além disso, segundo Adms, as reações às publicações chegam rápido e de forma agressiva. Principalmente nas cidades e nos vilarejos mais distantes. “Bate aqui e pega, reação imediata, é quase instantâneo”, destaca.




Para Jaime Júnior, ex-apresentador do programa "Aqui Agora" no Tocantins, as reações às vezes são agressivas. Após 19 anos como jornalista, ele deixou a profissão devido ameaças e situações conflituosas. Por diversas vezes, logo que publicava uma reportagem na parte da manhã, ao meio dia já recebia cobranças. Em uma cidade pequena todos querem respostas rápidas. 

O ex-jornalista de Tocantins diz que a TV na região é “muito usada como plataforma eleitoral”. Por isso, exigir, por exemplo, a aplicação da Lei de Acesso é um risco que não podem correr. 

Adms também falou sobre como entrou no ramo. “Todo mundo sabe contar história, agora convencer as pessoas de que você contou a história correta, aí você já começa e ser jornalista.” 

A paixão pelas narrativas falou mais alto, mas não tem formação acadêmica, como muitos jornalistas de sua região. Elvira Lobato relatou que um curso de jornalismo a distância oferece vagas, mas o custo de cerca de 500 reais é alto para esses profissionais. Por isso muitos começaram o curso, porém logo saíram, o que faz com que o aprendizado seja na prática.

O mercado Amazônico na maioria das vezes não consegue absorver jornalistas formados. Isso acontece pois essas emissoras são pequenas e com poucos recursos. Muitas vezes o âncora do jornal é a mesma pessoa que vai para a rua fazer as reportagens. Jaime relata que quando ainda era jornalista chegou a gravar sozinho no estúdio. Isso ocorre por não terem patrocínio.

Além da falta de verbas os repórteres precisam ter um bom conhecimento da região, pois a comunicação lá é dificultosa. A maioria dos órgãos públicos, como escolas, delegacias e hospitais não possuem telefone, nem ao menos informações prévias para a apuração. O que causa uma grande dificuldade na hora conseguir fontes.  


O 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Google News Initiative, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Itaú, UOL, Twitter, Estadão, Folha de S.Paulo, Poder 360, Crusoé e Aos Fatos; apoio de mídia de Correio (BA), CBN, Grupo RBS e SBT; e apoio institucional de Abert, ANJ, Aner, Comunique-se, Consulado dos Estados Unidos, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Insper, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, Meio, Oboré Projetos Especiais, Ogilvy, Portal Imprensa, Revista piauí, Textual e Unesco. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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