28/06/2019

Entrevista: o que o Leste Europeu pode ensinar ao Brasil no combate às fake news

Jornalista do The New York Times explica que ser enganado faz parte da natureza humana 

Por Giulia Afiune
Edição Leandro Melito

O jornalista do New York Times Adam B. Ellick afirma que a "desinformação" é um dos desafios mais importantes da nossa geração

Da Rússia ao Brasil, dos anos 1980 ao século XXI, os “ingredientes” que compõem campanhas de desinformação são essencialmente os mesmos. É o que defende o jornalista do New York Times Adam B. Ellick, co-criador da série de vídeos de opinião “Operation Infektion”, sobre as táticas soviéticas de 'desinformação' que são usadas ao redor do mundo até hoje.

Os vídeos explicam que 'fake news' não são uma ideia nova. Durante a Guerra Fria, um departamento dentro da agência de inteligência soviética KGB se dedicava a criar e espalhar mentiras estratégicas, ou 'desinformações', para destruir seus oponentes.



Ellick já fez de tudo no New York Times. Como correspondente internacional, ele passou anos cobrindo direitos humanos e guerras em texto e vídeo. Sua longa lista de produções inclui documentários sobre a ativista paquistanesa Malala Yousafzai, sobre uma mulher afegã morta por uma máfia e sobre um homem que forjava documentos para ajudar crianças a escaparem de nazistas - os dois últimos premiados com os prêmios Pulitzer e Emmy, respectivamente. 

Hoje, Ellick dirige o departamento de "Vídeos de Opinião” do New York Times, que ele criou há um ano e meio com o objetivo de produzir jornalismo aprofundado em uma linguagem atraente para jovens (e potenciais assinantes). Apesar de os departamentos de opinião e a redação ficarem separados no New York Times, Ellick explica que a "opinião" presente em seus vídeos está sempre baseada em fatos, e por isso requer muita apuração. "Os processos são muito parecidos com os da redação, a diferença é que nós abraçamos voz e perspectiva pessoal em nossos vídeos." 

Em entrevista exclusiva para o Projeto Repórter do Futuro, Ellick explicou por que países do leste europeu criaram as iniciativas mais efetivas de combate a fake news e como o jornalismo "sério” pode atingir milhares de pessoas online.

Qual é a diferença entre a “desinformação” criada pela Rússia nos anos 80 e as “desinformações” criadas hoje? 

No Operation Infektion nós revelamos o que chamamos de “manual” composto por sete passos de desinformação. São técnicas testadas pelo tempo que estão presentes em matérias de hoje e dos anos 1980.

As táticas e técnicas são essencialmente as mesmas. A diferença fundamental é a tecnologia que permitiu que a desinformação seja disseminada muito mais rápido e em uma escala muito maior, o que seria inimaginável nos anos 1980. O caso que revelamos na série levou seis anos para se espalhar manualmente de país em país, sendo plantada em diferentes jornais ao redor do mundo. Uma campanha como essa hoje, a conspiração “pizzagate”, por exemplo, levou basicamente seis semanas e atingiu mais gente do que ninguém jamais pode sonhar em 1985. 

A outra coisa interessante é que na Guerra Fria o esforço era para promover a União Soviética como uma alternativa ao capitalismo americano. A desinformação russa hoje é puro niilismo. Ela questiona tudo a ponto de te deixar exausto, de te fazer não acreditar em nada e acreditar que não existe alternativa. O objetivo é te deixar politicamente apático e passivo a ponto de você nem querer pensar em nada. 

Mas essas “desinformações” estão sendo distribuídas pela Rússia ou produzidas na Rússia e disseminadas ao redor do mundo?

Os dois, mas principalmente sendo replicadas por países ao redor do mundo com seus próprios “manuais”  de desinformação. Depois que a série foi publicada, recebi emails de editores de Taiwan e do Irã dizendo que isso é exatamente o que está acontecendo lá. E nós sabemos que essas estratégias estão sendo usadas em países como o Brasil e as Filipinas, que ela está nas mãos de governos locais, estaduais e de ditadores, e até de grupos de ativistas ao redor do mundo. 

Na série “Operation Infektion”, o que você descobriu sobre o Brasil relacionado às fake news? 

Nós não focamos no Brasil, mas ele estava nas nossas mentes o tempo todo. E, claro, a crise que se deu com o WhatsApp mostra que a tecnologia de hoje permite que a desinformação se espalhe mais rapidamente. Existe uma técnica [de desinformação descrita na série] chamada “núcleo verdadeiro”, em que toda boa campanha de desinformação está ancorada em alguma verdade, mas é envolta por uma mentira. Um mito ou conspiração é criado em torno de um fato original distante. Eu acho que uma série de histórias como essa decolaram aqui. Essas técnicas de desinformação hoje estão nas mãos de todo mundo. 

Que outras técnicas e ingredientes descritos na série fazem uma campanha de desinformação ser efetiva?

Uma delas é a "grande mentira". Campanhas de desinformação bem sucedidas frequentemente são baseadas nas mentiras mais absurdas e audaciosas. Um bom agente desinformação não acha nenhuma mentira muito grande ou ridícula. Você e eu podemos pensar "Ah, ninguém vai acreditar nessa mentira, ela é muito grande." Mas eles acreditam.

Outra regra no nosso "manual" é encontrar o "idiota útil", a pessoa que consciente ou cegamente ajuda a disseminar uma mentira. O Wikileaks é o mais clássico exemplo da Rússia lavando as mãos no que diz respeito à  disseminação de desinformações.  Há uma separação entre a pessoa que faz a desinformação e a pessoa que a espalha e os "idiotas úteis" preservam a identidade da origem [da desinformação]. 

Uma das minhas regras preferidas é o "jogo a longo prazo". Uma boa campanha de desinformação não se preocupa com o impacto imediato.  A melhor analogia que eu ouvi sobre isso foi uma entrevista de alguém nos anos 80 que diz que uma boa campanha de desinformação é como uma gota caindo em cima de uma pedra. Na hora em que ela cai, nada acontece. Você volta cinco anos depois e tem um pequeno buraquinho na pedra. Aí você volta 15 ou 20 anos depois e já tem um grande buraco na pedra.

Nos Estados Unidos e no New York Times vocês estão combatendo as notícias falsas vindo do palácio presidencial há quase três anos. O que vocês aprenderam nesse processo? Você tem algum conselho para os jornalistas brasileiros? 

Uma das regras mais básicas é o “o jornalismo à prova de bala”. Um jornalismo "desleixado" nunca foi aceitável, mas agora nós vivemos em uma era em que somos monitorados por grupos e indivíduos que estão prontos para nos derrubar por qualquer erro. Então nossa apuração precisa estar nos mais altos níveis de acurácia. Não existe espaço para erro. É claro que somos seres humanos e jornalistas e sempre vamos errar. Mas hoje em dia temos que fazer reportagem de uma forma mais cautelosa do que nunca. 

Nossa série passa vinte minutos olhando para lições e soluções e nós as dividimos em três categorias. Uma é a alfabetização midiática e a sociedade civil. Eu não sou contra o bom e velho fact-checking mas a maioria das pessoas que consulta fact-checkings são pessoas que estão procurando algum tipo de verdade. Então eu acho que eles são ótimos mas não vão resolver o problema.

O próximo nível de solução de remediação são as redes sociais porque elas controlam o fluxo de disseminação. Nos últimos seis meses nós vimos alguns avanços que nos deixam otimistas, como a derrubada de páginas que promovem conspirações políticas no Twitter e no Facebook. Essas plataformas são pateticamente lentas e passaram anos em negação, mas nos últimos seis meses elas tomaram ações significativas. Eu argumentaria que é muito tarde, mas é melhor tarde do que nunca.

E aí existe, claro, a regulação governamental. Imagine quando as empresas aéreas passaram a checar a identidade dos passageiros. Elas disseram “do que vocês estão falando? Nosso trabalho é fazer viagens de avião, nós não trabalhamos no setor de segurança.” Mas por causa da regulação governamental, hoje é normal para as companhias aéreas checarem os passaportes das pessoas. Nosso governo demorou para passar a regular e colocar pressão nas plataformas de redes sociais para mudarem suas regras e políticas internas. Estamos vendo uma correção, mas ela é dolorosamente devagar e pateticamente atrasada. 

Você acha que a maioria dos americanos e brasileiros estão predispostos a acreditar em notícias falsas? 

Eu não sei, essa questão precisaria ser analisada em uma pesquisa. Mas o que eu sei é que é da natureza humana ser enganado porque nós temos todo tipo de incentivo comportamental e emocional para isso. Nós estamos inclinados a tomar más decisões, fazer maus julgamentos e manter más crenças. Então ninguém está imune a ser enganado. A Rússia fez campanhas efetivas de desinformação no acidente que enganaram a esquerda também. Então não é uma questão de direita ou esquerda. É uma questão humana. 

Na série "Operation Infektion" você mostra algumas iniciativas no Leste Europeu para combater as notícias falsas. Esses remédios são efetivos? E os Estados Unidos estão adotando algumas dessas iniciativas?

Não existe uma solução decisiva para isso mas alguns países estão fazendo coisas muito interessantes que são efetivas em maior e menor escala, uma vez que é difícil medir a desinformação. Uma das minhas iniciativas preferidas, que não está na série porque é difícil de visualizar, é na Eslováquia. Lá existe um consórcio de empresas que compra anúncios na televisão e eles fizeram um acordo para não comprar anúncios em estações de TV cujos canais promovem desinformação. Então esse é um exemplo do setor privado de uma iniciativa do setor privado que usa dinheiro, em vez de um argumento ético ou algo mais abstrato, para ser mais responsável. E isso é muito efetivo.

Eu acho que ainda temos muito a aprender mas a OTAN e outras organizações estão melhorando e levando a desinformação mais a sério. Contudo, o maior problema que nós temos nos Estados Unidos, com o qual vocês podem se relacionar aqui no Brasil, é que a desinformação durante a Guerra Fria era uma ideia de Nós X Eles. Hoje a desinformação nos Estados Unidos é uma batalha de Nós X Nós. Os americanos estão usando desinformação uns contra os outros, incluindo o governo contra sua própria população e diferentes facções da sociedade usando desinformação para discórdias internas.

A motivação para a série “Operation Infektion” foi uma experiência pessoal. O que aconteceu? 

Várias coisas inspiraram esse projeto. Uma delas é que eu acredito que a “desinformação” é um dos desafios mais importantes da nossa geração e nós vamos continuar combatendo isso por anos à medida em que diferentes formas de tecnologia apareçam. 

Em um nível mais pessoal, como correspondente internacional eu vivi por anos em outros países em que eu tive uma relação mais próxima com a desinformação. Vivi em países do leste europeu e na Rússia que estão atrás de outras nações europeias em termos de PIB e investimento em forças militares, mas que são os mais avançados em sentir o cheiro de mentiras deslavadas, detectar “desinformações” e pensar criticamente. E isso porque eles viveram debaixo da sombra das campanhas de desinformação russas por séculos. Existe uma velha expressão da época da União Soviética que dizia que quando você lesse o jornal Pravda, para entender a verdade, você tinha que ler nas entrelinhas, não as palavras. 

Enquanto eu morei no Paquistão, eu fui vítima, entre muitas outras, de uma ampla campanha de desinformação. Eu fui falsamente acusado pelo âncora de TV mais famoso do país de ser um terrorista e de ter conduzido um ataque a uma escola em que dezenas de crianças paquistanesas foram mortas. Um dos responsáveis pelos bombardeios tinha pele clara e olhos azuis. Então eles pegaram a foto do homem morto e colocaram do lado da minha foto dizendo que era a mesma pessoa. E também houve uma campanha de desinformação, baseada nas minhas reportagens sobre a Malala Yousafzai, conduzida por ele e por outros veículos paquistaneses que afirmava que eu era um espião da CIA e que eu tinha a apoiado para difamar o Islã e criar simpatia no Ocidente que é contrário ao Talibã. Isso é parte de um esforço mais amplo de pôr a culpa dos problemas internos em outros países. 

Como você define “video de opinião” e por que o NY Times decidiu investir nesse gênero? 

O objetivo em todas essas matérias é apresentar vídeos argumentativo sérios e facilmente digeríveis que questionem as suas suposições, façam você repensar as suas visões de mundo e tentem fazer do mundo um lugar melhor, o que é parte da missão do departamento de opinião do New York Times. 

Existe uma geração de pessoas entre vinte e trinta e poucos anos que esperam ver argumentos e opiniões em vídeos. Isso é o que essa mídia capta bem: perspectiva, ponto de vista, atitude, personalidade, argumento. O que o vídeo faz mal é objetividade, neutralidade, chato, estéril, sem voz… Um quarto dos jovens americanos se informam pelo YouTube e o New York Times quer estabelecer uma relação com esses potenciais assinantes. A maneira de atingi-los é produzindo bom jornalismo que pode ser disseminado nos espaços onde eles estão.

Nós podemos fazer jornalismo sério, bem investigado e explicativo com reportagem original, material quente e exclusivo, e podemos fazê-los em vídeos divertidos – não engraçados – interessantes e digeríveis. Nós frequentemente pensamos que reportagens sérias precisam ser experiências sérias, mas a experiência de consumir reportagens sérias pode ser deliciosa. Para isso, é preciso mudar a voz, o tom e o estilo de contar histórias. Porque nós não queremos atingir pessoas que leem checagem de fatos, e sim pessoas normais no YouTube.



O 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Google News Initiative, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Itaú, UOL, Twitter, Estadão, Folha de S.Paulo, Poder 360, Crusoé e Aos Fatos; apoio de mídia de Correio (BA), CBN, Grupo RBS e SBT; e apoio institucional de Abert, ANJ, Aner, Comunique-se, Consulado dos Estados Unidos, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Insper, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, Meio, Oboré Projetos Especiais, Ogilvy, Portal Imprensa, Revista piauí, Textual e Unesco. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Nenhum comentário:

Postar um comentário