28/06/2019

Bastidores da reportagem que descobriu milhares de covas clandestinas no México

Mago Torres conta como foi trabalhar a distância em uma das reportagens mais completas sobre o tema

Por Emily Santos


Mago Torres (freelancer).
Foto: Alice Vergueiro / Abraji
Uma reportagem investigativa que identificou e localizou quase dois mil locais usados para desova de corpos clandestinamente no México, entre 2006 e 2016, teve seus bastidores revelados pela repórter mexicana Mago Torres, durante o 14º Congresso da Abraji. O trabalho reuniu milhares de dados e foi publicado por meio do site “A dónde van los desaparecidos”.

Mago foi uma das responsáveis pelo projeto e coautora da reportagem “El país de las 2 mil fosas”. A jornalista revelou os detalhes sobre o processo de investigação, que aconteceu em meio a uma crise humanitária que assola o país.




A profissional explicou que as denúncias que chegavam de todos os cantos do país sobre covas clandestinas foi o impulso inicial para a investigação. E, com a inércia do governo, que abrandava o surto de violência no México, nenhuma solução era tomada e, com isso, mais queixas chegavam.

“Foi uma investigação difícil. Demorou um ano e meio, foi um período longo. E o que mais demorou foi dar sentido aos dados”, contou Mago. Segundo a palestrante, a todo momento, a equipe do projeto comparava as informações que recebiam com documentos da Procuradoria-Geral da República, mas os dados não batiam.

“As autoridades não têm uma metodologia conjunta para documentar [as informações]. Nós tivemos que organizar todos os dados, então cada vez que recebíamos um documento era muito cansativo”, revelou.

Outra dificuldade, segundo Mago, foi decidir qual produto editorial reuniria todas as informações que a equipe de jornalistas independentes estava analisando. “Desde o começo sabíamos que queríamos fazer um trabalho de reportagem, mas que pudesse ser útil para as famílias e as organizações que trabalham na busca de pessoas”.

Essa identificação com as famílias foi crucial para o trabalho, embora, segundo a repórter, durante os 18 meses de investigação, o tema passou a soar corriqueiro para equipe, devido à imersão no assunto. Mas, aos poucos, a equipe voltou a se sensibilizar com o tema.

Trabalho “100% a distância”

O grupo de repórteres do “A dónde van los desaparecidos” trabalhou “100% a distância”, segundo Torres. “Montamos uma equipe de jornalistas, completamente independentes, completamente sem recursos no começo e num ambiente virtual. Todos trabalhamos de lugares diferentes, nunca estivemos num mesmo escritório”, contou.

A distância, no entanto, não atrapalhou os trabalhos e, mesmo longe, os profissionais conseguiram atuar em sintonia. E cerca de 7 meses após a publicação do projeto, que reúne reportagens, infográficos, histórias e outras dezenas de informações, Mago analisou a repercussão da iniciativa e se orgulhou: “O governo do México reconhece que esse é um dos trabalhos mais completo sobre os casos”. 

O governo mexicano

A crise que explodiu em 2006 durante o governo de Felipe Calderón, e seguiu pelo governo de Enrique Peña Nieto até 2018, foi apaziguada pelo atual presidente. A primeira medida de Andrés Manuel López Obrador foi decretar a criação de uma comissão para investigar o desaparecimento dos estudantes de Ayotzinapa, um dos casos mais polêmicos sobre desaparecimento forçado no país.

No entanto, segundo Mago, apesar da narrativa do governo ter mudado e de sua abertura em dialogar com os grupos em busca de resposta, as ações não estão muito claras. “Mas a fala é diferente, e em algumas áreas há esperança de que pelo menos seja organizada uma base de dados confiável”, finalizou.

O 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Google News Initiative, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Itaú, UOL, Twitter, Estadão, Folha de S.Paulo, Poder 360, Crusoé e Aos Fatos; apoio de mídia de Correio (BA), CBN, Grupo RBS e SBT; e apoio institucional de Abert, ANJ, Aner, Comunique-se, Consulado dos Estados Unidos, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Insper, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, Meio, Oboré Projetos Especiais, Ogilvy, Portal Imprensa, Revista piauí, Textual e Unesco. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji. 

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