29/06/2019

Jornalistas latino-americanos criam estratégias de resistência contra pressões governamentais

Profissionais da Venezuela, Guatemala, Colômbia e Uruguai relatam formas de superar crise

Por Luísa Cortés
Edição Géssica Brandino

Liseth Boon (Runrunes), Fabián Werner (Sudestada), Adriana Garcia (Orbitalab), Gladys Olmstead (Nómada) e Hugo Mario Cárdenas (El País) - Foto: Mariana Soares
A crise venezuelana também atingiu o jornalismo. Desde 2014, quando Nicolás Maduro foi eleito, 266 repórteres saíram do país. Frequentemente, sites de notícias são tirados do ar, como é o caso do El Pitazo, que já mudou seu domínio na internet quatro vezes, conta a jornalista Lisseth Boon. 

Coordenadora da editoria de investigação do site venezuelano independente Runrunes, ela cita diversos tipos de censura enfrentados no país, principalmente no governo Maduro. 




Não que antes não houvesse censura aos meios de comunicação. Segundo Boon, já no governo do ex-presidente Hugo Chávez havia um plano de hegemonia da comunicação. Mas, no mandato seguinte, as estratégias sofisticaram-se, já que os governantes perceberam que o fechamento de jornais representava a eles um alto custo político.

Se antes os dados pessoais de jornalistas podiam ser expostos pelo próprio Presidente da República em rede nacional, o governo começou a usar um fator econômico a seu favor: o monopólio da indústria de papel para jornal. A partir de então, apenas alguns veículos recebiam o papel para imprimir suas reportagens, o que causou na época o fechamento de 50 jornais impressos no país.

Os novos veículos tiveram de ser digitais “à força”, conta a jornalista. O que não impediu que seus sites fossem tirados do ar repetidas vezes. Outra forma de controle dos meios de comunicação foi a compra de jornais, que resultou em mudanças na linha editorial e desaparecimento de unidades de investigação. Alguns repórteres foram exilados ou tiveram seus passaportes confiscados. “Todos os jornalistas venezuelanos, cada vez que saímos [do país], temos esse medo. Poderiam fazer o mesmo com a gente”.

Para lidar com esses problemas, a atitude dos jornalistas é de resistência. “Queremos continuar trabalhando, tem muito o que investigar e muito para denunciar”, diz Boon. Criaram uma certa fórmula de sobrevivência, que inclui alianças entre meios locais e internacionais, acordos comerciais e novas formas de financiamento, como doações, e bolsas de produção.

A jornalista Gladys Olmstead, que escreve para o Nómada, veículo alternativo guatemalteco, também criou outras formas de financiamento de sua equipe. Para garantir o controle da linha editorial do site, que tem uma abordagem feminista e pró-LGBT, ela conta que passaram a organizar eventos frequentados por sua comunidade de leitores. A última edição do encontro, que cobra a entrada, teve a presença de aproximadamente 800 pessoas, segundo ela.

O veículo também tem diversos sócios, pessoas que se interessam em colaborar para a produção de jornalismo alternativo no país. Há uma seleção interna para evitar que políticos, envolvidos em casos de corrupção e pessoas que possam trazer uma má imagem ao jornal associem-se.

O oligopólio na comunicação, é um problema em comum enfrentado pelos jornalistas, como contou Hugo Cárdenas, do El País da Colômbia. No país, os meios de comunicação pertencem a alguns poucos poderosos, como Luis Carlos Sarmiento, Carlos Ardila Lülle e Felipe López Caballero, além do Grupo Santo Domingo.

Já no Uruguai, Fabián Werner, da Sudestada, conta que também há desafios para meios independentes, como o financiamento e a pressão diante de reportagens investigativas. Sobre a relação com o Brasil, ele comenta que houve uma aproximação com a cobertura da Lava Jato, que envolve diversos países latino-americanos.


O 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Google News Initiative, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Itaú, UOL, Twitter, Estadão, Folha de S.Paulo, Poder 360, Crusoé e Aos Fatos; apoio de mídia de Correio (BA), CBN, Grupo RBS e SBT; e apoio institucional de Abert, ANJ, Aner, Comunique-se, Consulado dos Estados Unidos, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Insper, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, Meio, Oboré Projetos Especiais, Ogilvy, Portal Imprensa, Revista piauí, Textual e Unesco. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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