27/06/2019

O general que não se omite, nem se expõe

Discreto e sem menções diretas, ex-ministro culpa batalha ideológica e intervenções informais pela instabilidade no governo

Por Ariádne Mussato, Gabriela Silva de Carvalho, Luísa Cortés e Weslley Galzo
Edição Caroline Vieira, Cristiane Paião e Germano Assad 
General Santos Cruz foi o entrevistado na abertura do 14º Congresso Abraji (Foto: Augusto Godoy / Oboré)
Recém-demitido do Ministério da Secretaria de Governo, Carlos Alberto Santos Cruz, General reformado do Exército, abriu o Congresso da Abraji alegando não saber até hoje as motivações de sua demissão. Com uma referência bem humorada, citou a canção “Garçom”, de Reginaldo Rossi: “O meu caso é mais um, é banal”. 

Apesar do tom descontraído, que arrancou risos da plateia, informações de bastidores dão conta que a saída foi muito mais tensa do que o General alega. A demissão envolve atritos públicos com Carlos, o filho do meio do presidente e principal responsável pela comunicação da campanha presidencial, além de ataques frequentes da ala “ideológica” do governo encabeçada por Olavo de Carvalho.




"Não vou discutir sobre essas personalidades públicas, senão vou descer o nível", rebateu, questionado pelos moderadores sobre nomes específicos. A sua posição em relação às Forças Armadas é de que não devem tomar partido político ou serem ideológicas, apesar de haver muitos membros do Exército no governo.

O papel do jornalismo 

O ex-ministro reforçou o papel social do jornalismo, em especial no combate de notícias falsas. Dividiu a imprensa entre os veículos que seguem códigos de ética e princípios profissionais e os 'irresponsáveis' que, segundo ele, estão ascendendo e ganhando espaço com as mídias sociais. 

“O jornalismo vai ter que ser investigativo ao quadrado, porque está competindo com gente irresponsável”, disse Santos Cruz. Questionado sobre quem seriam essas pessoas, o general preferiu não comentar.

A jornalista da GloboNews Miriam Leitão, que estava na plateia, avaliou como positiva a participação de Santos Cruz no 14º Congresso da Abraji e elogiou a opinião do ex-ministro sobre as fake news.

“Acho que o maior recado que ele deu pra gente é que entende que existe jornalismo profissional e que existem pessoas que estão produzindo informação falsa. E esse é um assunto caro para nós [jornalistas], porque nós sabemos como é que temos que pegar uma informação, tratar a informação, checar a informação, ouvir o outro lado, é trabalhoso.

Ele entendeu que nós fazemos isso profissionalmente e que, ao mesmo tempo, o espaço está ocupado com muita fake news, muita notícia falsa”, destacou.

Pesquisa realizada pelo Institute Digital News Report 2019, da Reuters, endossa a opinião de ambos, ao revelar que 53% da população brasileira se informa pelo WhatsApp. “Eu vejo que não é só a comunicação de governo que precisa ser organizada, a mídia como um todo está passando por uma crise que é originada por essa situação”, apontou o general.

Ao comentar o uso ostensivo de redes sociais como canais oficiais de comunicação do governo Santos Cruz enfatizou que a forma com que o presidente da república se manifesta nestes canais não é uma problemática. 

“É um instrumento a ser utilizado. Hoje, não se precisa mais de uma agência de publicidade e pedir para publicar uma nota, dá para publicar direto no Twitter. É um mecanismo de divulgação, de legislação,de motivação para a população”. 

O debate resgata o caso do General Villas Boas, que, na véspera do julgamento de habeas corpus do ex-presidente Lula, se manifestou por meio do Twitter e acabou sendo alvo de críticas referentes a uma possível ameaça à democracia com sua ação. Afinal, Segundo Santos Cruz, “isso teve um impacto e foi na véspera do julgamento. Acaba tendo impacto político”.

Democracia em risco? 

Questionado o ex-ministro minimizou temores de risco à democracia:“não há risco nenhum para a democracia, o risco é o rombo da corrupção”, afirmou.

Sobre o possível temor que os militares possam causar no governo, Santos Cruz afirmou que a ditadura militar é uma coisa que afeta, particularmente, aqueles que tem interesse político. "O cidadão comum não é afetado. Não vejo nenhum risco de quebra institucional", disse.

Para o ex-ministro “existe a impressão de que os militares voltaram à política, mas é uma visão de fora. A sociedade tem a impressão desse vínculo de apoio institucional.  O militarismo, a igreja o judiciário são chamados de sociedades totais, são sociedades que pegam 100% da sua vida. Há uma impressão, mas não há esse vínculo institucional. Não pode ter”.

Direitos humanos

Santos Cruz considera que uma “ideologização” que paira sobre as decisões governamentais e questões relativas a direitos humanos, que para ele, atrapalha o bom funcionamento do governo.

É o que já havia declarado em entrevista à revista Época, quando mencionou um “show de besteiras” que tira o foco do que é importante. Segundo Cruz, os direitos humanos não são “novidade nenhuma, claro que todo mundo é igual”, e que as desigualdades sociais têm de ser superadas. 

No entanto, questionado sobre a questão dos assassinatos de jovens negros, voltou a dizer que se deve “tomar cuidado para não interpretar isso de um ponto de vista ideológico”. Ele afirmou que não acredita que o assunto deva ser tratado com enfoque em minorias, mas em um âmbito geral. “Deve se levar em consideração o conceito de respeito, aí não precisa ficar individualizando”.

Confrontado com a famosa frase “direitos humanos para humanos direitos”, justificou: “é para balancear excessos no outro extremo”.

O 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Google News Initiative, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Itaú, UOL, Twitter, Estadão, Folha de S.Paulo, Poder 360, Crusoé e Aos Fatos; apoio de mídia de Correio (BA), CBN, Grupo RBS e SBT; e apoio institucional de Abert, ANJ, Aner, Comunique-se, Consulado dos Estados Unidos, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Insper, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, Meio, Oboré Projetos Especiais, Ogilvy, Portal Imprensa, Revista piauí, Textual e Unesco. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Nenhum comentário:

Postar um comentário