28/06/2019

Nada de imprensa a partir desse ponto: onde está o limite na cobertura de massacres?

Buscando audiência, mídia sensacionalista explora o sofrimento das pessoas

Por Matheus Menezes
Edição Pâmela Ellen

Fernanda Mena (Folha de S.Paulo)
Foto: Alice Vergueiro / Abraji
Em março deste ano, o Brasil ficou chocado com a morte de sete pessoas na escola Raul Brasil, em Suzano. Esse episódio traz à tona uma série de questões sobre a relação da mídia com a ocorrência de massacres. Efeitos como o copycat, em que os homicidas constroem uma rede de referências imitando e enaltecendo os crimes, se aplicam aqui, uma vez que os atiradores se inspiraram no Massacre de Columbine, nos EUA.

“Por mais que para nós esse tipo de ação seja deplorável, para alguns grupos sociais isso é uma coisa a ser enaltecida”, expõe a repórter Fernanda Mena, da Folha de S. Paulo, especializada nesse tipo de cobertura. Junto a ela, a repórter Maria Carolina Trevisan, colunista do UOL, refletiu sobre a responsabilidade social do jornalista.




Outro efeito encontrado nesse tipo de crime, segundo as jornalistas, é o contágio, no qual a probabilidade de ocorrência de outro ataque do mesmo tipo é muito maior nas semanas seguintes ao fato. Os pesquisadores que elaboraram os estudos encontraram uma correlação entre esses fenômenos e a abordagem da mídia. “Existe uma cultura de celebrização. Como esses caras ficam sabendo de detalhes? Principalmente pela mídia”, afirma Mena.

Além de Suzano, outro exemplo é o Massacre em Christchurch, na Nova Zelândia, em que o assassino fez uma transmissão ao vivo no Facebook de todo o ocorrido. Mena explica que “havia uma intenção clara de publicizar. Ele tinha um plano de mídia para que a mensagem de ódio chegasse a mais pessoas. E a mídia saiu publicando, divulgando as mensagens de ódio”. 

O sensacionalismo que rege parte da cobertura nacional é responsável pela divulgação exaustiva da imagem dos criminosos. Geralmente, essas pessoas tem um perfil jovem. “Meter a câmera na cara de um adolescente é errado. Nós, como jornalistas, temos que cuidar desses personagens. Não se deve sempre criminalizar a memória desses adolescentes”, atesta a jornalista Maria Carolina Trevisan.

Para entender as razões que propiciam a incidência de massacres como o de Suzano, as jornalistas acreditam que é preciso analisar as políticas públicas. Trevisan defende uma aplicação mais zelosa que leve em consideração a vulnerabilidade social dos jovens. “São pessoas geralmente com algum problema dentro da escola, com uma solidão profunda. A rede de proteção do adolescente falhou em algum momento”, conclui.

Sobre abordagem que o jornalista pode adotar para tratar desse assunto com sensibilidade, Fernanda Mena sugere:  “A maior proteção do repórter em uma situação como essa é a verdade”. E Trevisan complementa: “Notícia não é espetáculo”.

O 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Google News Initiative, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Itaú, UOL, Twitter, Estadão, Folha de S.Paulo, Poder 360, Crusoé e Aos Fatos; apoio de mídia de Correio (BA), CBN, Grupo RBS e SBT; e apoio institucional de Abert, ANJ, Aner, Comunique-se, Consulado dos Estados Unidos, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Insper, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, Meio, Oboré Projetos Especiais, Ogilvy, Portal Imprensa, Revista piauí, Textual e Unesco. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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