27/06/2019

"Quem não viu Brexit, Trump e Bolsonaro estava desconectado da realidade do seu país", diz Andrew Fishman


Para correspondentes, é preciso sair da zona de conforto para entender o Brasil

Por: Giulia Afiune
Edição: Germano Assad

As correspondentes internacionais Samantha Pearson (The Wall Street Journal) e Shannon Sims (Freelancer) discutiram como fugir de estereótipos na cobertura internacional. (Foto: Guto Marcondes / Abraji) 

Por que o Brexit e as eleições de Donald Trump e Jair Bolsonaro foram uma surpresa para jornalistas britânicos, americanos e brasileiros? De acordo com três correspondentes internacionais que trabalham no Brasil – Andrew Fishman, Shannon Sims e Samantha Pearson –, muitos jornalistas não viram a ascensão desses fenômenos porque não fizeram reportagem fora de suas "bolhas".  


"Quem não viu Brexit, Trump e Bolsonaro estava desconectado da realidade do seu país", disse o americano Andrew Fishman, editor geral do The Intercept Brasil. Ele emendou que todos as redações deixam de fazer matérias por causa de seus vieses internos e pela falta de diversidade, mas é preciso fazer uma autocrítica. "Por que você errou da primeira vez e como pode melhorar para não errar nos outros casos?" 





Natural do Texas, no sul dos Estados Unidos, a jornalista freelancer Shannon Sims disse que não ficou surpresa com a vitória de Trump, e sim com raiva da cobertura das eleições de 2016 nos Estados Unidos, onde a maior parte dos veículos está concentrado nas costas leste e oeste. "Ninguém tinha tempo de sair de Manhattan para ver o que estava acontecendo no país. Ou eles íam para o Sul por três dias para contar o que o taxista falou para eles. Eles não estavam entendendo," Sims lembra. Para ela, os jornalistas têm que manter a mente aberta para tentar entender as pessoas. "O privilégio que o jornalista tem é a oportunidade de falar com pessoas que não têm nada a ver com você".  


A correspondente do Wall Street Journal, Samantha Pearson, lembra que uma reportagem que ela realizou no Mato Grosso do Sul no início de 2018 a fez questionar seus próprios pressupostos sobre a candidatura de Bolsonaro. "Eu estava esperando chegar lá e achar só fazendeiros querendo votar no Bolsonaro, mas achei mulheres, jovens e pessoas gays querendo votar no Bolsonaro de qualquer forma." Para Pearson, a vitória de Bolsonaro foi "a conclusão lógica de várias coisas que aconteceram no Brasil."


Andrew Fishman (The Intercept Brasil) e Pedro Doria (Meio) compararam o trabalho do jornalista no Brasil e nos Estados Unidos. (Foto: Guto Marcondes / Abraji) 

Os correspondentes explicarem que, apesar dos esforços, não é fácil fugir de estereótipos sobre o Brasil. Especialmente por lidarem com editores que não estão familiarizados com a realidade brasileira. Pearson brincou que, para seus editores aprovarem uma pauta, era necessário incluir uma das cinco palavras: favela, praia, carnaval, Gisele ou Neymar.

Já Shannon Sims passou por uma situação mais complicada. Ao tentar explicar o que significava o mote "imagina na Copa" em uma reportagem, ela usou a expressão "we're totally screwed" ("nós estamos completamente ferrados"). Seus editores então colocaram a frase no título, acompanhado pela linha fina "The land of sun, sex, and soccer couldn’t be more down about the World Cup" ("A terra do sol, do sexo e do futebol não poderia estar mais desanimada com a Copa do Mundo"). 

Após a publicação causar mal-estar com as fontes de Sims e com o público brasileiro, a expressão foi colocada entre aspas no título da reportagem. "Foi uma aula de jornalismo. Depois disso, quando eu estou trabalhando com um novo veículo eu sempre deixo super claro que eu quero ver o título, a descrição, os títulos das redes sociais e a linguagem que vai aparecer no Instagram antes de o artigo ser publicado porque eu não confio que as pessoas vão entender o Brasil," ensina.

Os jornalistas também compararam os momentos políticos dos Estados Unidos e do Brasil. Fishman citou algumas similaridades entre os dois países, como o surgimento da extrema direita, a radicalização e a polarização. Para ele, ser jornalista está ficando mais difícil tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos.  




O 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Google News Initiative, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Itaú, UOL, Twitter, Estadão, Folha de S.Paulo, Poder 360, Crusoé e Aos Fatos; apoio de mídia de Correio (BA), CBN, Grupo RBS e SBT; e apoio institucional de Abert, ANJ, Aner, Comunique-se, Consulado dos Estados Unidos, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Insper, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, Meio, Oboré Projetos Especiais, Ogilvy, Portal Imprensa, Revista piauí, Textual e Unesco. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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