29/06/2019

Consórcio de jornalistas expõe fraudes no setor da saúde

Fruto de jornalismo colaborativo, investigação reuniu 250 repórteres baseados em 36 países

Por Juliana Fronckowiak
Edição Tiago Angelo
Guilherme Amado (Abraji), Allan de Abreu (revista piauí) e Anna Beatriz Anjos (Agência Pública). Foto: Ariadne Mussato. 
Não satisfeitos com os resultados inéditos da colaboração transnacional de jornalistas no caso Panama Papers, maior vazamento de documentos envolvendo paraísos fiscais, o ICIJ (International Consortium of Investigative Journalists) apurou, em 2018, fraudes relacionadas ao mau uso de dispositivos médicos. No Brasil, a Agência Pública e a Revista Piauí participaram da investigação, batizada de The Implant Files. 
Fundindo técnicas da investigação jornalística tradicional - como entrevistas e dados públicos pedidos via LAI (lei de acesso a Informação) -, com vazamentos de documentos e construção de bancos de dados, Allan de Abreu, jornalista da Piauí, desvendou fraudes em licitações praticadas pela maior fabricante mundial de dispositivos cardíacos, o que estimulou cirurgias desnecessárias no Brasil durante 20 anos. 

O resultado, segundo ele, foi a produção de reportagens que “levantaram um debate interessante no Brasil sobre a qualidade de fiscalização dos serviços médicos”. Além do cartel em licitações praticado por empresas de prótese de silicone, a investigação abordou diversos processos jurídicos de mulheres que tiveram complicações de saúde após a aplicação de próteses. 

Outra revelação que ganhou grande repercussão foi feita pela repórter Anna Beatriz Anjos, da Agência Pública. A jornalista revelou um caso envolvendo o dispositivo Assure, produzido pela Bayer, que prometia esterilizar mulheres sem a necessidade de cirurgias.

No entanto, as pacientes que receberam os implantes apresentaram dores fortes, enjoo, perfurações e infecções no útero. “Foi uma cobertura focada nas vítimas que confiavam no sistema público de saúde”, conta. 

Colaboração
Apesar de projetos colaborativos terem mostrado bons resultados ao redor do mundo, Anna afirma que no Brasil ainda não há a cultura de elaborar grandes coberturas em equipe. No país, segundo ela, o jornalista investigativo é uma espécie de “lobo solitário, que dirige tudo” sem compartilhar as informações.

Emilia Struck, do ICIJ, vê vantagens na cobertura colaborativa. Para ela, uma das vantagens é a de que os jornalistas, frequentemente alvos de ameaças, podem trabalhar com maior segurança e amparado por grupos maiores.  

A área, segundo ela, precisa de “repórteres capazes de deixar o ego de lado e compartilhar informações sem competir com os colegas”. Além disso, a interconexão de informações pode melhorar os níveis de audiência dos meios interessados em trabalhar em equipe.

O 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Google News Initiative, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Itaú, UOL, Twitter, Estadão, Folha de S.Paulo, Poder 360, Crusoé e Aos Fatos; apoio de mídia de Correio (BA), CBN, Grupo RBS e SBT; e apoio institucional de Abert, ANJ, Aner, Comunique-se, Consulado dos Estados Unidos, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Insper, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, Meio, Oboré Projetos Especiais, Ogilvy, Portal Imprensa, Revista piauí, Textual e Unesco. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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