28/06/2019

Descrença na mídia local é terreno fértil para imprensa internacional

Declínio de partidos moderados e desinformação nas redes sociais
durante eleições criaram pano de fundo para crise política

Por Juliana Fronckowiak Geitens, Mariana Soares e Yasmin Oliveira

Andrew Fishman (Intercept), Sam Cowie (Freelancer), Brad Haynes (Reuters), Sarah Maslin  (Economist). Foto: Mariana Soares
“A última ameaça da América Latina”. Foi com essa manchete que o jornal britânico The Guardian expôs suas preocupações em torno da eleição do presidente Jair Bolsonaro (PSL), em 2018. E não foi o único. Veículos como o The New York Times, El País, BBC e The Intercept também colocaram o então candidato como uma de suas principais pautas sobre o Brasil.

O cenário era: economia em baixa, desemprego em alta, falta de confiança nas instituições. “Estava muito fácil massacrar a esquerda depois de 13 anos de poder”, afirma Carla Jimenez, chefe da redação da sucursal brasileira do El País, sobre as eleições durante o 14º Congresso Internacional de Jornalismo da Abraji.





Outro fator o ajudaria, as redes sociais. A campanha de Bolsonaro apoiou-se em sua maior parte em mídias sociais como Facebook, Twitter e WhatsApp. O pesselista possui cerca de três vezes mais seguidores que seu opositor à época, Fernando Haddad (PT), no Twitter. “A família Bolsonaro foi uma das forças políticas do Brasil que conseguiu se apropriar desse novo meio”, afirmou Brad Haynes, editor chefe da Reuters no Brasil.

Ao contrário da campanha Trump, que se mobilizou pelo Facebook, aqui a rede social de destaque - o WhatsApp - “era muito mais obscura”, opina Haynes. De acordo com uma pesquisa do Instituto Reuters, Digital News Report 2019, 53% da população brasileira se informou pela rede social no ano eleitoral.

Foram nessas redes sociais em que a maior parte das notícias falsas em seu favor foram disseminadas. Segundo reportagem da Folha de S. Paulo, existiu um caixa 2 de empresários para bancar a compra de distribuição de mensagens em massa contra o PT via Whatsapp. O governo nega a informação.

Mas não foram esses os únicos motivos que elegeram o Bolsonaro. Como pano de fundo, os protestos populares que aconteceram em junho de 2013 no Brasil, também conhecidos como ‘Jornadas de Junho’, desencadearam insatisfações sobre uma grande variedade de temas, como os gastos públicos em grandes eventos esportivos internacionais, violência policial, má qualidade dos serviços públicos e a corrupção na política brasileira. 

Os protestos geraram grande repercussão na mídia nacional e internacional, e de forma geral, os brasileiros não se sentiram bem representados pela imprensa local. Nesse sentido, houve grande procura da população por uma visão externa dos acontecimentos, reportados pela mídia internacional. “Do dia pra noite, 400 mil brasileiros acessaram o site do El País… foi um momento de crise de credibilidade da imprensa brasileira e um marco muito grande pra imprensa internacional”, disse Jimenez.

A partir daí, a imprensa internacional passou a ter maior credibilidade entre a população brasileira. Uma pesquisa realizada pela Confederação Nacional do Transporte, em 2019, aponta que o descrédito com a imprensa nacional só perde para o governo e partidos políticos.

No entanto, para Sarah Maslin, repórter do The Economist, a imprensa internacional era “alarmista demais”. No Brasil, o esforço em tratar os dois candidatos à Presidência da República, Fernando Haddad e Jair Bolsonaro, como igualmente extremos foi um “equívoco”. “Um dos candidatos defendia a democracia. Já o outro tinha suas controvérsias”, afirma a jornalista.

Fixadas em redações nas maiores cidades brasileiras, mídias como El País e The Intercept, representadas na mesa, fazem questão de demonstrar seu lado da história. Para Jimenez, do El País, isso acontece com a mídia internacional porque a imprensa de fora tem mais liberdade para expor os problemas do nosso governo.

Andrew Fishman, que está desde o início do Intercept Brasil, lançado em uma 'garagem mofada, literalmente', explica que a tomada de um lado é a linha inicial do veículo. “Se era para começarmos pequenos, tínhamos que fazer algo que ninguém estava fazendo”.

Perguntando sobre o diferencial da tomada partido pelo Intercept, Fishman explicita que “o ideal é ser justo. Nós tomamos um lado porque jornalismo é mais do que mostrar o 50/50 de cada lado. Tudo que publicamos tem um embasamento”.

Quando questionados sobre os motivos da ascensão de Bolsonaro, a resposta em comum era o anti-petismo. Mas a crise da legitimidade e a saída da centro-direita moderada foram respostas firmes entre os quatro convidados. Além do fenômeno da desinformação, comparado a outros países com acontecimentos parecidos, como os Estados Unidos ou até a Turquia.

Enfrentar tal fenômeno ainda é um desafio. A estratégia de desinformação é objeto novo de estudo e deve se intensificar nas próximas eleições. Para os palestrantes, resta esperar quem se destaca na campanha. Como diz Fishman em algum momento do seu relato: “o Brasil é um país difícil de se entender”.

O 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Google News Initiative, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Itaú, UOL, Twitter, Estadão, Folha de S.Paulo, Poder 360, Crusoé e Aos Fatos; apoio de mídia de Correio (BA), CBN, Grupo RBS e SBT; e apoio institucional de Abert, ANJ, Aner, Comunique-se, Consulado dos Estados Unidos, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Insper, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, Meio, Oboré Projetos Especiais, Ogilvy, Portal Imprensa, Revista piauí, Textual e Unesco. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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