30/06/2019

Entrevista: assassinato de jornalistas cria zonas silenciadas na América Latina, diz assessor da Unesco

Guilherme Canela, assessor da Unesco, fala sobre os desafios para o exercício da profissão na região

Por Ana Luisa Zaniboni, Cristiane Paião, Stéfanie Rigamonti e Leandro Melito

Edição: Leandro Melito e Stéfanie Rigamonti


Guilherme Canela, assessor da Unesco. Foto: Cristiane Paião.
A América Latina é a região do mundo sem um conflito armado aberto com maior número de assassinatos de jornalistas no mundo. Em 2017 foram registrados 22 casos na região - o equivalente a 28% das mortes em todo o mundo. Em 2016 foram 28 casos - 27% do total. As informações são do relatório da Unesco Punir o Crime, Não a Verdade

“Se eu tivesse que escolher um problema, o primeiro que a gente tem que atacar é que as pessoas parem de matar jornalistas”, afirma Guilherme Canela, Assessor Regional de Comunicação e Informação da Unesco. 

Ele classifica a situação como grave e considera que a violência contra os jornalistas cria zonas silenciadas na região. Apesar do quadro negativo em relação à segurança dos profissionais a região apresentou melhora em outros aspectos que dizem respeito à liberdade de expressão. Hoje apenas 4 países não possuem uma Lei de Acesso à Informação: Venezuela, Bolívia, Cuba e Costa Rica. “Isso, do ponto de vista estrutural das nossas democracias é uma coisa extraordinária. Mas ter lei é só o primeiro passo. Precisa usar, precisa implementar”, aponta Canela. 

O assessor da Unesco considera que o jornalismo profissional tem sido cada vez mais necessário frente ao aumento das campanhas de desinformação que se utilizam da tecnologia para disseminar informações falsas mais rapidamente e em maior quantidade, mas o modelo de negócios passa por uma crise. “Nós temos um sistema em que as pessoas não querem pagar por esse serviço”, aponta. 


Em entrevista exclusiva para o Projeto Repórter do Futuro, Canela falou sobre os desafios para o jornalismo na América Latina.


A gente participou de uma mesa que falava justamente da questão do jornalismo investigativo na América Latina. E tivemos relatos que contextualizam esse cenário da importância cada vez maior do jornalismo profissional para descobrir e entender melhor o mundo. Como vocês da Unesco entendem o jornalismo hoje? Por que esse apreço pela comunicação dentro da estrutura da Unesco? 

A construção das principais instituições que conformam o que, hoje, a gente entende com esse nome meio abstrato, e de certa forma meio mágico, de democracia, entre elas o jornalismo - mas também a separação de poderes, uma sociedade ativa, os processos eleitorais regulares, livres e justos - essa construção é absolutamente recente na história da humanidade. 


Há 100 anos, menos de 10% da população mundial vivia sob algo chamado democracia. Quando você faz essa pergunta para uma instituição como a Unesco, que olha o mundo a partir de uma lente muito mais demorada, há uma tendência de não responder muito diferente do que a gente responderia há 75 anos, quando ela foi criada. Porque, para nós, o segredo dessa discussão ainda está nos princípios que foram estabelecidos lá atrás na Declaração [Universal dos Direitos Humanos] de 1948. 


Se vocês olham com cuidado para o que diz o artigo 19 que protege vocês - os jornalistas - e a liberdade de expressão de todos nós,ele diz que a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa não dependiam das fronteiras do Estado Nacional e por quaisquer plataformas. Por que estou fazendo essa digressão? Porque o jornalismo é importante para esse DNA da democracia da mesma forma como ele foi importante em 48, da mesma forma como ele foi importante logo depois da Revolução Francesa. E se a gente não tiver essa perspectiva histórica, a gente não vai conseguir entender as transformações que estão em curso. 


E separar o joio do trigo. Porque às vezes parte de nossa preocupação é uma certa leitura de que tudo é revolucionário, tudo está em crise, quando, na verdade, muita gente deu - sem nenhuma metáfora - sua vida para construir essas instituições que, como eu disse, são relativamente recentes se a gente toma o curso da história. 


Agora, há uma questão que é de certa forma irônica. Porque o jornalismo sempre teve uma função de fazer uma curadoria da esfera pública. Essa necessidade talvez nunca tenha sido tão intensa como nós a temos hoje. Mas, por outro lado, nós temos um sistema, um modelo de negócios, em que as pessoas não querem pagar por esse serviço. Por uma série de razões há um volume imenso de conteúdo gratuito, não necessariamente de qualidade. 


Então, a ironia é: talvez o jornalismo nunca tenha sido tão necessário, como está sendo agora, mas ao mesmo tempo há uma crise de como financiar esse modelo. Termino dizendo que a gente tem que tomar muito cuidado de parecer que há uma novidade do ponto de vista institucional. 


O Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, nesse debate sobre se seria necessário criar novos direitos para lidar com a internet, publicou uma resolução que me parece muito acertada que diz o seguinte: os direitos que valem offline, valem online. Não se trata de criar novos direitos, se trata de aplicar esses direitos que foram conquistados a duras penas. Agora, é mais difícil. 


Trazendo a questão para o Brasil, com a disseminação de informações falsas durante a campanha eleitoral. O jornalismo tem buscado reagir a isso de diferentes maneiras. Como você vê o papel da imprensa brasileira no momento em que se questiona a solidez da nossa democracia? 


Eu não posso responder uma questão específica sobre o Brasil porque a Unesco só emite considerações quando a gente tem dados objetivos e concretos. Quando a gente faz um estudo específico sobre aquilo. Recentemente lançamos o relatório Tendências mundiais de liberdade de expressão e de desenvolvimento da mídia sobre como vão exatamente todas essas questões que você mencionou no contexto latino-americano.


Há algumas especificidades para o contexto brasileiro, mas acho que no contexto geral várias dessas questões se aplicam. Começo por essa noção permanente e relevante, legítima, que está no debate de uma suposta "crise da democracia". A primeira coisa que eu recomendaria a vocês, jornalistas, é colocar essa percepção em questionamento. 


Porque, como eu disse na pergunta anterior, a ideia de democracia é relativamente recente, e se você pensa em quantidade de população que vive sob regimes democráticos, ainda mais recente. Somente nos últimos 30 anos a gente conseguiu ter mais da metade da população mundial vivendo sob regimes democráticos. Então, do ponto de vista histórico, é um experimento relativamente recente. 


A pergunta é: a gente está vivendo uma crise da democracia ou nós estamos vivendo um processo de amadurecimento, que demanda mudanças, e as mudanças, em geral, trazem alguns traumas? É preciso olhar um pouco além do verniz, da superfície do debate. Isso vai ajudar a fazer essa construção. Quais são os grandes desafios, então, dentro desse contexto de processo de amadurecimento da democracia, para a comunicação na América Latina na visão da Unesco? 


Nós temos velhos e novos problemas. Dentro dos velhos problemas, faz 40 anos que nós estamos dizendo a mesma coisa: altas taxas de concentração da mídia; e, em muitos países, violência crua contra os jornalistas. A América Latina é a região do mundo sem um conflito armado aberto com maior número de assassinatos de jornalistas no Planeta. 


Se eu tivesse que escolher um problema, o primeiro que a gente tem que atacar é que as pessoas parem de matar jornalistas. Uma vida ceifada é um problema, seja de jornalista ou seja de qualquer outra pessoa. Mas aqui tem uma questão adicional: a liberdade de expressão é um direito individual e, ao mesmo tempo, coletivo. 


Quando um narcotraficante mata um jornalista em uma determinada região do México, ele está ceifando da maneira mais crua possível o direito de expressão desse jornalista que foi assassinado e de toda aquela comunidade de ser informada. Então, o que está acontecendo em várias áreas da América Latina, seja pelos assassinatos diretos ou pela autocensura que os assassinatos terminam gerando depois, é que estamos criando zonas silenciadas, onde ninguém reporta nada por medo, por razões legítimas. A situação é grave. 


Você tem também os meios de censura indireta, como é o caso do uso indevido da publicidade governamental, sendo altamente utilizado como um método novo de censura indireta. Depois, a quase inexistência de um serviço público de comunicação, de radiodifusão - você tem muita mídia governamental que se chama pública, mas no fim é um meio de expressão dos governos. 


Ainda há uma comunicação comunitária, que se avançou muito no sentido do reconhecimento legal da existência, mas não do apoio para que ela efetivamente possa existir. A isso se juntam novas agendas, como o que fazer com a internet - porque tem um monte de coisa debaixo desse guarda-chuva - e como criar uma governança democrática na internet. 


Houve algum tipo de avanço nas questões relacionadas à liberdade de expressão na região? 


Há uma série de problemas que precisam ser equacionados, mas do ponto de vista das ferramentas que a sociedade tem para equacionar esses problemas, estamos muito melhor hoje do que nós estávamos há 20, 30 anos. Há 20 anos, esta região do mundo tinha só um país com lei de acesso à informação pública. Hoje, só 4 não têm: Venezuela, Bolívia, Cuba e Costa Rica. Isso, do ponto de vista estrutural das nossas democracias é uma coisa extraordinária. Mas ter lei é só o primeiro passo. 


Precisa usar, precisa implementar. Do ponto de vista macro-estrutural, o jornalismo precisa ter um investimento mais forte em fazer jornalismo sobre a internet. Não a internet como ferramenta de trabalho, mas como objeto de investigação. E isso acontece muito pouco. Nós temos mais da metade da população mundial conectada e não virou um assunto jornalístico. Quais são as relações de poder que existem, quais são os interesses? Nesse mundo de problemas, em relação aos quais há distintas soluções, que não são consensuais entre os atores, há uma com a qual todo mundo está de acordo, que é chamada alfabetização midiático e informacional. 


O que é isso? Combater essas coisas todas, fake news, discurso do ódio, por meio da educação da população de como saber lidar essas coisas. Ironicamente, não há um único país que tenha uma política nacional decente, sustentável, de educação para os meios, de alfabetização midiática e informacional. Não que esse seja um assunto novo. Paulo Freire falava em educação para mídia em 1965. A América Latina é um celeiro filosófico e conceitual dessa discussão, mas ainda assim você não consegue encontrar nenhum país onde tenha política pública para educação para mídia. 


Como a Unesco vê o caminho para isso? Faltam pesquisas científicas que incentivem políticas públicas ou elas já existem? Como você vê na América latina as pesquisas científicas na área do jornalismo? 


Tudo isso que eu falei tem um volume de discussão científica, seja nas ciências da comunicação, seja na ciências sociais, no direito ou psicologia. Na verdade, os saltos tecnológicos são sempre acompanhados com algum delay de mais investigação, de mais interesse acadêmico, ainda que a própria tecnologia em geral seja gerada a partir de investigação científica para a construção daquela tecnologia em particular. 


Mas, depois temos investigação acadêmica e científica de melhor ou pior qualidade- porque tem gente falando besteira sobre o que está acontecendo no aspecto econômico, político e cultural. Por outro lado tem gente querendo regular. A investigação sim existe, e em alguns casos, como na alfabetizacao midiatica informacional, eu pararia de gastar em fazer mais pesquisas. É preciso implementar o que se sabe. 


O que eu acho que talvez falte é uma investigação que busque responder perguntas que ainda não estão respondidas: porque que se todo mundo está de acordo com esse negócio de educar as pessoas ainda não tem políticas públicas sobre isso? É preciso entender onde estão os pontos de veto. 


A gente teve uma mesa que discutiu sobre fake news em que todos os palestrantes e pessoas que estavam naquela mesa falavam que o termo é incorreto. Está faltando um termo mais estruturado para falar? Como vamos falar com essas pessoas que já adotaram o termo? 


A minha impressão é de que a gente precisa fazer um trabalho de explicar o conceito mais a fundo para a população. O termo fake news é um tema equivocado, porque se é notícia, em um conceito de notícia, não é falsa. Então, é uma contradição. Por exemplo, a Unesco disse desde o princípio que essa coisa deveria chamada pelo seu nome correto, que são campanhas de desinformação. Eu ainda preferia o termo mentiras. 


Dá para dizer isso então, mentira? Esses veículos que fazem fakes news, eles não são nem um pouco jornalísticos. Isso seria então um trabalho de educação para a mídia? 


Sim, e explicar as diferenças. É equivocado dizer que esse é um fenômeno novo, porque as pessoas sempre mentiram, inclusive no jornalismo e sobretudo em processos eleitorais. Que diferença temos hoje? É a velocidade como isso pode alcançar, as dimensões que isso pode alcançar e a sofisticação da mentira que a tecnologia permite. Por exemplo, o chamado deep fake- fazer com que uma pessoa diga algo que ela nunca disse. 


Com essa novidade, das dimensões, a velocidade e a tecnologia permitindo que efetivamente possam surgir campanhas, existem dois fenômenos que precisam ser analisados. Exemplo, meu tio conservador de Minas recebe uma fake news e passa para alguém sem nenhuma intencionalidade de causar dano. Ele acha que é verdade e passa adiante- isso é uma parte da história, que ajuda a dimensionar. 


A outra parte da história, que demandaria investigação jornalística a fundo, é quem foi o gerador original daquilo e qual é intencionalidade- escusa e criminosa de afetar o processo democrático e outras coisas. Uma coisa é quem dissemina de maneira ingênua- essa pessoa que precisa ser educada para poder identificar fake news, outra coisa é quem deliberadamente produz e gera isso com intencionalidades. 


Minha impressão é de que o debate é superficial e a própria cobertura da imprensa mescla essas coisas como se fossem iguais e tem diversas intencionalidades. Isso que acontece com fake news acontece com muitas outras coisas nesse admirável mundo novo. Como por exemplo, com o conceito de direito ao esquecimento. 


Essa história que todo mundo usa, o direito ao esquecimento, não existe em nenhum lugar- isso é uma decisão de uma corte europeia sobre desindexar informação de um buscador, que já tem uma série de complicações. Assim como o conceito de fake news é um conceito fácil, sexy e quase publicitário, direito ao esquecimento é outro conceito fácil que cola e que as pessoas começam a usar e acaba virando uma bola de neve.


Não acho que seja possível combater essa história. Logo, o trabalho de vocês é ajudar a entender. Tem um processo de tentar explicar esse fenômenos e tem um processo pedagógico do próprio jornalismo. Há estatísticas que mostram que a maioria das pessoas, seja para uma pesquisa escolar ou em casa, as pessoas não passam dos três primeiros resultados. É preciso fazer uma discussão para que elas não fiquem nos três primeiros resultados, porque o algoritmo é o algoritmo. As pessoas precisam entender que existem certas lógicas e essas discussões não são feitas.


O 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Google News Initiative, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Itaú, UOL, Twitter, Estadão, Folha de S.Paulo, Poder 360, Crusoé e Aos Fatos; apoio de mídia de Correio (BA), CBN, Grupo RBS e SBT; e apoio institucional de Abert, ANJ, Aner, Comunique-se, Consulado dos Estados Unidos, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Insper, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, Meio, Oboré Projetos Especiais, Ogilvy, Portal Imprensa, Revista piauí, Textual e Unesco. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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