27/06/2019

Repórteres rodam o país para descobrir "onde está Queiroz"?

Ex-assessor de Flávio Bolsonaro, militar que movimentou mais de R$1,2 milhão em um ano está foragido desde janeiro 

Por Géssica Brandino e Amanda Stabile
Fábio Serapião (Crusoé) e Juliana Castro (Globo). Foto: Guto Marcondes / Abraji
O paradeiro de Fabrício José Carlos de Queiroz, policial militar e ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro é a pergunta que não quer calar em torno de um caso revelado há seis meses. Fábio Serapião, autor do furo e atualmente na Crusoé, conta já ter viajado para alguns lugares do Brasil em busca de pistas e nada. 

“Eu viajei algumas cidades atrás dele, mas ainda não tive o prazer de encontrá-lo”, afirma. Também nessa busca, a repórter Juliana Castro, do Globo, gastou muita sola de sapato para encontrar o policial militar.


 

Depois de passar uma corrida eleitoral sem uma grande história, Serapião estava de férias e tomava um chopp quando recebeu a primeira informação que levaria à descoberta dos repasses de mais de R$1,2 milhão durante um ano na conta de Queiroz. “Uma fonte que eu tinha procurado há uns três meses me ligou e falou ‘passa aqui que eu acho que tenho uma coisa que vai te interessar’. Era o relatório do Coaf”, contou. 

Em 24h noite adentro, Serapião concluiu a leitura do relatório de mais de 400 páginas e naquela mesma semana foi publicada pelo jornal O Estado de S.Paulo a reportagem Coaf relata conta de ex-assessor de Flávio Bolsonaro”, que deu início a uma investigação sobre a relação entre o filho mais velho do presidente Bolsonaro e um PM até então desconhecido do público. “A partir daí eu fiquei muito no Rio de Janeiro, coloquei meu foco ali para tentar me concentrar no que estava acontecendo em relação aos políticos envolvidos no esquema da Lava Jato”, afirma. 

Assim que a notícia veio à tona, outras redações se mobilizaram para recuperar a história. Juliana Castro conta que sua investigação partiu da pergunta quem é Queiroz e qual a relação dele com Flávio Bolsonaro. Com uso de ferramentas, como stalkscan e intel techniques, ela conseguiu identificar as relações entre as famílias Queiroz e Bolsonaro. “A gente descobriu que jogos de futebol, churrascos, campanhas e vários eventos estabeleciam a conexão, a proximidade entre eles”, conta. 

Por meio da análise de documentos públicos, a repórter obteve o endereço do ex-assessor, no bairro da Taquara, na zona oeste do Rio de Janeiro, local descrito por ela como simples, com becos e numerações confusas. Daí partiu o questionamento “como uma pessoa com uma conta que movimentou R$1,2 milhão vive assim?”. 

Para identificar a enteada de Queiroz, também empregada pelo gabinete de Flávio Bolsonaro, a repórter recorreu ao uso do fator surpresa. “Eu grito o nome. Se a pessoa virar, é ela”, disse, divertindo os jornalistas presentes. 

Outras revelações foram obtidas pelos repórteres, que seguem investigando o caso. No final de abril, a justiça do Rio de Janeiro determinou a quebra de sigilo bancário e fiscal de Queiroz, Flávio Bolsonaro e de outras 84 pessoas e 9 empresas. O processo de investigação segue em sigilo no Ministério Público do Rio de Janeiro. 

Na avaliação dos dois repórteres, com a lei do Crime Organizado (12.850/2017) houve um avanço no processo de investigação de crimes de corrupção e lavagem de dinheiro dentro e fora das fronteiras do país. Para avançar, defendem a estruturação das polícias e investimento em formação para investigadores. 

“Na Lava Jato do Rio, por exemplo, eles descobriram outras formas de lavagem de dinheiro que não eram aquelas com as quais estavam acostumados a lidar. Tanto que hoje temos doleiros delatores que dão cursos para procuradores para falar da forma deles de como lavar dinheiro”, conta Juliana. 

Os dois jornalistas falaram do Caso Queiroz nesta quinta-feira (27) na 14º edição do Congresso de Jornalismo Investigativo da Abraji. O que muita gente desconhece é que o primeiro grande escândalo do governo de Jair Bolsonaro começou em um bar no bairro carioca do Leblon. 

O 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Google News Initiative, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Itaú, UOL, Twitter, Estadão, Folha de S.Paulo, Poder 360, Crusoé e Aos Fatos; apoio de mídia de Correio (BA), CBN, Grupo RBS e SBT; e apoio institucional de Abert, ANJ, Aner, Comunique-se, Consulado dos Estados Unidos, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Insper, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, Meio, Oboré Projetos Especiais, Ogilvy, Portal Imprensa, Revista piauí, Textual e Unesco. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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