28/06/2019

Do excêntrico ao real: bastidores das notícias além da Lava-Jato

Jornalistas da TV Globo detalham bastidores das matérias que produziram 

Por João Vitor Reis 

Arthur Guimarães (TV Globo) e Paulo Renato Soares (TV Globo). Foto: Mariana Soares

Uma doação controversa de missionários evangélicos. Um número de whatsapp na porta de uma loja de stand up paddle fechada em Punta del Este. Lavagem de dinheiro através de fábrica de água mineral. 

Essas foram algumas das situações relatadas pelos jornalistas Arthur Guimarães, acompanhado de Paulo Renato Soares, ambos da TV Globo, resultado de reportagens exibidas nos telejornais da emissora, na cobertura da operação Lava-jato.

“A gente ficou a frente da Lava-Jato. Não dependemos de fonte, fizemos nossa investigação, com nossas microcâmeras, nossos levantamentos societários, porque para eles (a força-tarefa da Lava-Jato) é muito fácil: tem um computador que basta apertar um botão e aparece tudo”, detalhou Arthur Guimarães, que é o produtor responsável na cobertura das reportagens da operação Lava-jato. “É uma coisa de você fazer na raça”.

Arthur acompanhou diversos casos de extensões da Operação Lava-Jato, como as operações Calicute e Ponto Final.

Calicute - Descobertas desde o Diário Oficial uruguaio

Em várias delações no início da Operação Lava-Jato surgiu o nome do doleiro Juca Bala. “Era um apelido, codinome de doleiro. Um cara importante, mas que ninguém sabia quem era. Uma fonte do câmbio negro disse que o nome dele é Vinicius Claret”, contou Guimarães.

Em busca no Diário Oficial do Uruguai, o produtor descobriu que o doleiro Juca Bala era dono de uma loja de stand up paddle (SUP ― um surf praticado com remo) em Punta del Este. Arthur tentou encontrá-lo em um evento esportivo no País vizinho que acabou cancelado.

Apesar disso, o doleiro foi localizado no endereço descoberto e foram tentadas abordagens com câmera escondida, sem êxito. “Quando dava a hora do almoço ele saía e deixava na porta um papelzinho sulfite escrito ‘llamame al whatsapp’, e a gente fez imagem dele”, disse Guimarães, que viu nisto uma informação.

Com o número em mãos, o jornalista acabou por encontrar o número na agenda de Maria Lúcia Tavares, que era a secretária do departamento de operações estruturadas da Odebrecht. “A gente foi pra perseguir o doleiro do Cabral, e descobriu que ele era o doleiro da Odebrecht”. 

A lavagem do Lavouras

Guimarães aprofundou também os bastidores da operação Ponto Final, que tratou do escândalo de pagamento de propina a políticos pela Fetranspor, sindicato patronal das empresas de ônibus do Rio de Janeiro, e do sumiço do presidente da entidade, José Carlos Lavouras. “Vazou a operação e ele sumiu. Os donos das empresas de ônibus no Rio são portugueses”, explicou. 

Segundo o jornalista, Lavouras fugiu para Portugal e lá operou um monopólio de ônibus em Matosinhos, no Porto. O Governo brasileiro entrou com pedido de extradição contra o empresário por conta de um sistema de lavagem de dinheiro de offshore triangulado por meio de uma produtora de água mineral na cidade de Carvalhelhos, no extremo norte.

Para o jornalista, o problema de fazer esse tipo de apuração é ser confundido com a polícia. “Ele é um delator, um cara que morre de medo de ser morto. Seguido, acha que você quer matá-lo e não fazer uma pergunta”, finaliza.

Guimarães e Soares reforçaram a possibilidade de crimes similares com sindicatos patronais em outras regiões do Brasil. “Em São Paulo tem a mesma instituição. É só investigar: antes da Lava-Jato a gente não tinha acesso a essas pessoas”, reforçou o produtor.


O 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Google News Initiative, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Itaú, UOL, Twitter, Estadão, Folha de S.Paulo, Poder 360, Crusoé e Aos Fatos; apoio de mídia de Correio (BA), CBN, Grupo RBS e SBT; e apoio institucional de Abert, ANJ, Aner, Comunique-se, Consulado dos Estados Unidos, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Insper, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, Meio, Oboré Projetos Especiais, Ogilvy, Portal Imprensa, Revista piauí, Textual e Unesco. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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