13/09/2020

Dados são aliados da transparência e do combate à desinformação nas eleições de 2020

Iniciativas como Raio-X dos Municípios, do Insper, e Perfil Político, da Open Knowledge devem subsidiar jornalistas durante o processo eleitoral

Por: Matheus Menezes e Weslley Galzo

Edição: Camila Araujo

Créditos: Núcleo de Arte

São aproximadamente 62% municípios brasileiros em desertos de notícias. Isso significa que 4.500 cidades não possuem uma cobertura jornalística especializada. Em qualquer contexto, esse dado é problemático. Com as eleições municipais que vão ocorrer em breve este ano, o tema se torna mais preocupante. A ausência do jornalismo é terreno fértil para a capilaridade da desinformação.

Na oficina “Dados e Eleições”, do 2º Domingo de Dados, da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), o jornalista Sérgio Spagnuolo chamou atenção para o fato de que mesmo quando há um ou dois veículos da imprensa local, não existe necessariamente um padrão de qualidade. “Esses veículos podem receber dinheiro de prefeito e de anunciantes porque é o que está garantindo a sobrevivência do negócio.”

Desinformação


Segundo Sérgio Ludtke, editor do projeto Comprova, coalizão formada por 24 veículos jornalísticos dedicados à checagem de informações, as eleições municipais de 2020 serão marcadas por um ambiente de incerteza, sobretudo, nas cidades pequenas que fazem parte dos desertos de notícia.

“Esses serão os espaços em que haverá uma ação muito forte por parte dos aplicativos de mensagem e das redes sociais, sem que nenhuma verificação seja feita”, pontua Ludtke, para quem tal constatação representa um risco à democracia.

Ludtke destaca alguns elementos fundamentais para que as redações otimizem os processos e utilizem os dados como aliados, como organizar as bases de dados próprias e deixá-las acessíveis no período eleitoral, treinar jornalistas para verificar fatos e utilizar dados na produção das reportagens, realizar parcerias entre jornais locais de pequeno porte com veículos maiores e universidades locais, além de formar canais de comunicação com os leitores para recebimento de materiais de checagem.

Na oficina, Ludtke ainda anunciou um curso da Abraji, desenvolvido em parceria com o Comprova, para capacitar jornalistas na checagem de informação, a fim de minimizar os efeitos causados pela desinformação no período eleitoral.

Fernanda Campagnucci, diretora executiva da Open Knowledge Brasil, destacou que a opacidade e a tentativa de ocultar informações por parte do poder público também devem ser pautados pela imprensa.

De acordo com a diretora, o engajamento da população com o monitoramento das atividades políticas também é fundamental para que projetos no mundo dos dados sejam realizados. “A estrutura só muda quando há uma demanda”, conta. Atualmente a Open Knowledge desenvolve um projeto que conta com a mobilização de centenas de pessoas na raspagem de dados dos Diários Oficiais de 309 municípios.

Novas regras


Nos últimos cinco anos, algumas mudanças no sistema eleitoral foram propostas para garantir a transparência. “São reformas estruturais, embora elas não tenham impacto imediato após a sua aprovação. Nós vamos começar a sentir os efeitos de algumas dessas mudanças a partir da próxima eleição em 2022”, conta Lara Mesquita, pesquisadora do Centro de Estudos de Política e Economia do Setor Público da Faculdade Getúlio Vargas (FGV Cepesp).

A Cláusula de Desempenho, aprovada pela Emenda Constitucional 97, por exemplo, restringe o acesso dos partidos com desempenho eleitoral mínimo para recursos públicos, como Fundo Partidário e Propaganda Partidária no Rádio e na TV.

Outra regra importante que começa a valer a partir deste ano é o fim das coligações proporcionais. “Isso significa que partidos não podem mais se juntar para tentar eleger candidatos com a soma dos votos de diferentes legendas”, explica Mesquita.

A distribuição de recursos pelos partidos deve ser outro tema relevante nessas eleições, como destaca Manoel Galdino, diretor executivo da Transparência Brasil. Ele pontua que as candidaturas laranja e as fraudes nas políticas públicas de cota podem vir à tona, assim como ocorreu em 2018. Além das reservas de gênero, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu pela divisão de recursos deve ser destinado proporcionalmente aos candidatos negros. Essa nova regra seria implementada apenas em 2022, mas por decisão de Ricardo Lewandowski, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), ela passa a valer já esse ano.

Para conhecer alguns projetos e bases de dados, confira os links:

Raio-X dos Municípios (Projor)
Cepesp (FGV)
Elas no Congresso (Revista Azmina)
Pindograma
Operação serenata de amor (Open Knowledge)
Perfil Político (Open Knowledge)
Brasil.IO

A cobertura oficial do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário