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27/06/2019

Jogo sujo

Jornalistas revelam esquema da CBF para vender direitos de transmissão do Brasileiro

Por João Vitor Reis, Luana Dias e Matheus Menezes
Edição Tiago Angelo 
Cátia Seabra (Folha de S. Paulo) ressalta a necessidade de ser cuidadoso e claro com as  fontes. Foto: Alice Vergueiro

A repórter especial da Folha de S. Paulo, Cátia Seabra, recebeu um convite para tomar café com uma fonte antiga, durante a campanha eleitoral de 2018. A jornalista aceitou a proposta prontamente e, no decorrer da conversa, recebeu um papel com informações que culminariam em uma série de reportagens sobre um drible na licitação, encabeçado pela CBF, dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro.


Para ajudá-la a apurar a informação, contou com o auxílio de alguns jornalistas, entre eles Diego Garcia, também da Folha. Em entrevista Cátia afirmou que a postura de seriedade de Garcia quanto ao trabalho jornalístico foi o que os uniu.



26/06/2016

Cobertura de crises humanitárias requer preparo emocional do jornalista, aconselham repórteres especiais

Por Ariane Costa Gomes

Repórteres em meio à coberturas de crises humanitárias estão propensos a passar por situações imprevistas no roteiro e possíveis fracassos. Para superá-los, é preciso ter preparo emocional, alerta os jornalistas Leandro Colon, da Folha de S.Paulo e Letícia Duarte, do Zero Hora.

Os dois repórteres especiais participaram do painel “Cobertura de crises humanitárias: experiências”, mediado pelo jornalista freelancer Germano Assad, neste sábado (25) no 11º Congresso da Abraji, em São Paulo.

Foto: Alice Vergueiro
Os profissionais contaram que neste tipo de cobertura, muitas vezes, o jornalista sai para a rua sem ter uma pauta definida e sem saber com qual história voltará. São nessas situações que ele tem que estar preparado para os possíveis imprevistos e saber redirecionar rapidamente o foco da reportagem. 

Para Colon, esse redirecionamento na rua pode ser decisivo. “Meu foco é contar histórias e contar o que eu vi de forma mais fiel possível”, afirma. 

Desencontros com o personagem e perda de equipamentos são alguns dos imprevistos que podem acontecer durante a produção da reportagem. Nessas ocasiões, aconselham os jornalistas, o repórter precisa ter inteligência emocional para conseguir pensar em alternativas, além de lidar com a pressão pessoal e dos chefes. “Lidar com o fracasso de não conseguir é importante para continuar tentando”, afirma Colon.

Letícia destaca outro imprevisto: o de risco à segurança do profissional, presente nas coberturas de crises humanitárias em terrenos adversos. Segundo a jornalista do Zero Hora, a adrenalina de encontrar boas histórias pode, às vezes, fazer com que o repórter não meça os riscos que corre.

Os repórteres também ressaltaram a importância de sugerir e apostar em boas histórias e acreditar na função social da profissão. “O jornalista é como um tradutor de mundos capaz de aproximar realidades distantes do público”, diz Colon. 

A proximidade e a honestidade com a fonte também foram pontos discutidos no painel. Para os jornalistas, vivenciar a história possibilita escrever uma narrativa diferente da convencional e é capaz de mostrar algo que as pessoas não estão vendo. Porém, o repórter precisa lembrar que não é o protagonista da reportagem e se colocar no seu lugar de interlocutor. “É preciso estar próximo o suficiente para gerar empatia, mas reconhecer seu papel como repórter", afirma Letícia.



O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.



25/06/2016

Conhecer público é essencial para viabilizar jornalismo de qualidade

Por Jeniffer Mendonça


Compreender o comportamento do leitor no meio em que ele está inserido é o que permite aproximar viabilidade econômica e jornalismo de qualidade. "Cada notícia merece uma decisão especial para o formato em que vai ser entregue", pontuou neste sábado (25) a editora-chefe do BuzzFeed Brasil, Manuela Barem, durante o painel "Como conquistar o leitor da geração Milênio?" no 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji.

Foto: Alice Vergueiro
Com mediação da jornalista Alana Rizzo, da Revista Época e da Abraji, a mesa reuniu, além de Manuela, Sergio Gwercman, diretor editoral da unidade Estilo de Vida da Editora Abril, e o secretário de redação do jornal Folha de S.Paulo, Vinicius Mota.


Segundo pesquisa do Instituto Reuters de Estudos sobre Jornalismo, 72% dos brasileiros entrevistados utilizam as redes sociais como fontes de notícias. Dentre 26 países, o Brasil é o terceiro no ranking de usuários que pagam por conteúdo jornalístico online (22%). Diante desses dados, os palestrantes ressaltaram a importância do jornalismo com credibilidade, apuração e checagem numa era em que qualquer indivíduo com acesso à internet pode produzir informação.

Por isso, intercalar notícias provenientes das redes e verificar a respectiva autenticidade se tornou uma seção exclusiva (Social News) do BuzzFeed Brasil. O portal é conhecido pelas listas, gifs e vídeos voltados para o humor e cultura pop, mas nos últimos dois meses a versão brasileira tem experimentado maneiras de cobrir "hard news" e aplicá-las em reportagens. "A produção de conteúdo voltado para entretenimento é o que paga as contas do BuzzFeed e é assim que investimos em jornalismo", explicou Manuela.

Gwercman enfatizou que não é possível presumir o leitor do Milênio, mas estar atento às particularidades do público, que se renova a cada geração. "O estágio da vida mostra a maneira como se consome conteúdo", destacou.

Além disso, o jornalista citou O Guia do Estudante e a Superinteressante, veículos da Editora Abril, como exemplos para atingir o público de forma efetiva, por meio da segmentação e especialização em conteúdo. "A ideia de curadoria é cada vez menos uma solução editorial, porque as pessoas já têm isso no 'feed' do Facebook". Expandir as possibilidades de arrecadação de recursos para além das matérias são meios apontados pelo diretor da Estilo de Vida, que cita a Feira do Estudante: "O que era uma publicação em papel virou um evento".

Mota afirmou que o desafio é atingir um público mais maduro. "Quanto mais as pessoas envelhecem, mais pressão sofrem para se informarem e não serem apenas alvos de informação", afirma. Segundo relatório do Pew Research Center, 79% dos usuários norte-americanos do Facebook estão na faixa dos 30 a 49 anos, apenas 3 pontos percentuais a menos que o público entre 18 e 29 anos (82%). Em relação às redes sociais, enfatizou: "Para a produção de notícia de qualidade, é preciso ser remunerado. É desleal absorver conteúdo artesanal e não haver um retorno".

Por fim, o secretário de redação da Folha de S.Paulo ressaltou a necessidade do diálogo intergeracional com os futuros jornalistas. "As organizações jornalísticas precisam pensar nas gerações de profissionais que vêm pela frente, senão a cultura jornalística se perde", concluiu.

O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.   

24/06/2016

“Quem paga as contas ainda é o papel impresso”, diz editor-executivo da Folha

Por Karina Balan


Os diretores dos três principais jornais brasileiros discutiram nesta sexta-feira (24), no painel "Como investir em reportagem em tempos de crise", os desafios de se fazer bom jornalismo num momento de esvaziamento das redações e de grandes perdas com a receita publicitária. Apesar do momento difícil, João Caminoto, diretor de jornalismo do jornal O Estado de S.Paulo, Sérgio Dávila, diretor-executivo da Folha de S.Paulo e Ascânio Seleme, diretor de redação do jornal O Globo, apostam na combinação entre plataforma digital e histórias exclusivas.

Foto: Alice Vergueiro
"O desafio é continuar sendo relevante, a gente tem que ter gente boa e bem remunerada em abundância, mas não temos. Os problemas dos jornais não estão nas redações, o principal problema é que o anunciante, que pagava metade das contas, foi embora", disse Ascânio Seleme, diretor de redação de O Globo.

 Os jornalistas ressaltaram que a oferta de conteúdo digital é muito grande, o que faz com que a informação seja vista como commodity. Segundo o editor executivo da Folha de S.Paulo, Sérgio Dávila, a abundância de informação faz com que os consumidores atuais estejam pouco dispostos a pagar por notícias.

Contudo, as facilidades da rede não diminuíram os custos de se fazer reportagem. "É muito caro produzir o conteúdo que a gente produz; a gente tem que encontrar meios de buscar novos leitores, apostando em mais análise", conta Ascânio. Os profissionais destacam que a produção de reportagens de fôlego exige a dispensa de bons repórteres das redações, e que as apurações nem sempre geram retorno.

A maior parte da receita dos jornais ainda é proveniente do impresso, embora o número de assinaturas online tenha crescido progressivamente. "Existe um fetiche em torno do digital, mas ele ainda é uma promessa, e não uma realidade do ponto de vista financeiro. Quem paga as contas é o papai impresso", avalia Sérgio Dávila

Em meio à fuga dos anunciantes, os jornais apostam em diferentes conteúdos para cada plataforma. João Caminoto, diretor de conteúdo de O Estado de S.Paulo, afirma que o digital abriu novos caminhos para a reportagem, como o jornalismo de dados dados e reportagens multimídia. "A reportagem em profundidade ganhou força. Agora podemos oferecer novos formatos, em vídeo, podcast, realidade virtual", diz. Para ele, algumas reportagens ganham muito mais vida no ambiente digital .

Quanto às projeções para o futuro, eles acreditam que o jornalismo se adaptará aos novos modelos de negócio. "O que vamos ter é um jornal que vai depender mais da circulação", disse Sérgio Dávila. Segundo ele, os portais de notícia ainda têm que competir com o Facebook, Google, Twitter e Instagram. "Imagine um dia nas rede sociais, sem conteúdo produzido pelos jornais. Será que nós, usuários, nos contentaríamos com este conteúdo?", questiona.


O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Especialistas questionam credibilidade de mídias tradicionais e novas

Por Caio Nascimento 

Ao discutir a relação entre novas mídias e mídia tradicional durante o primeiro dia do 11º Abraji (Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo), nesta quinta-feira (23), Dimmi Amora, repórter da Folha de S. Paulo, Bruno Torturra, fundador da Mídia Ninja, e o doutor em Ciência Política Fernando Lattman questionaram a credibilidade da imprensa. 


Fotos: Alice Vergueiro
Para Dimmi Amora, a mídia precisa seguir um Estado Democrático de Direito consolidado para não ser cooptada por interesses de instituições, conseguindo, assim, manter um discurso relevante para seu público. O jornalista disse que a competitividade entre as mídias, uma boa estrutura econômica do veículo e a diversidade de opiniões dentro dele garantem recursos suficientes para aguentar a pressão dos grupos de interesses. 

"As redações em geral são poucos diversas. Elas são formadas por grupos da sociedade muito homogêneos e isso reflete no que será publicado e nas fontes que formarão a opinião pública", afirmou Amora.

De acordo com o repórter da Folha de S.Paulo, esses fatores são necessários para a credibilidade do trabalho jornalístico. Amora relaciona a pluralidade do veículo à proximidade que ele tem com o seu público. 

Segundo o profissional, uma causa da falta de confiança do leitor é a mistura entre publicidade, opinião e informação. "Hoje não se separam essas três coisas e isso tem colaborado para que confundamos jornalismo com militância. Duas palavras que devem andar separadas", ressaltou. Para Amora, a militância desequilibra a notícia e não mostra os dois lados da moeda, dando ao leitor um só direcionamento. "Esse desequilíbrio leva ao radicalismo e fica nítido nas redes sociais", salientou.


Torturra reforçou essa posição, afirmando que as empresas da informática, como o Google e o Facebook, estão monopolizando o mercado da informação. Segundo o fundador da Mídia Ninja, essas plataformas quebraram a estrutura do modelo de negócio pelo qual a notícia se dava e modificaram a produção da informação. 

Para Torturra, essa nova arquitetura digital leva à fusão dos departamentos comercial e editorial, visto que os "likes" nas redes sociais funcionam como um endosso e angariam visibilidade ao veículo. "Essa união é o fenômeno mais perigoso pelo qual estamos passando hoje", destacou.

Abordando organização de um veículo, Fernando Lattman ressaltou que a institucionalização e a abertura comercial e empresarial dos meios de comunicação no passado colaboraram na construção de uma ética para o jornalismo. 

Segundo o doutor em Ciência Política, a notícia tem um valor de uso e um valor de troca ligados à credibilidade. "Você compra a notícia ao comprar jornais, assinar canais pagos etc. A notícia só pode ser feita pelo seu valor de uso", afirmou o sociólogo.

Torturra discordou. De acordo com o fundador da Mídia Ninja, a credibilidade não significa valor monetário como no passado. "A confiança não é mais essencial para o sustento financeiro de uma instituição porque, hoje, o valor que se extrai da sociedade não vem necessariamente da credibilidade. Os tempos mudaram", apontou. 

Para o jornalista, as empresas visam a produzir conteúdos interessantes para acessar o leitor, mas não o contrário. "O público compra um veículo porque acha que ele é mais ou menos crível ou por questão de identidade, mas o que a mídia vende ao seu cliente não é a informação, mas o acesso a esse público", ressaltou Torturra.

 'IMPRENSA MONARQUISTA' 

Segundo Torturra, o problema das mídias tradicionais brasileiras é a forma como os veículos que as cobrem são concentradas no país, enquanto que a mídia alternativa é mais diversa. "A República não chegou à grande imprensa, que ainda é monarquista, uma vez que são os sobrenomes que falam mais alto".

Torturra também criticou a radicalidade que a mídia alternativa pode alcançar. "Acho que o problema é que quando se assume uma narrativa com um só foco, se estabelece uma versão da realidade que o repórter da nova mídia leva ao público", disse. "Isso tem implicações muitos sérias; pode gerar discursos radicais."

Para reverter esse quadro, Amora reforça a necessidade de as novas gerações entrarem nos jornais, ocuparem os cargos e pensarem diferente do modo "monárquico" que,  na visão deles, caracteriza o atual jornalismo. 

"A forma monárquica passa dos superiores para os subordinados", apontou Amora. Segundo o repórter, a falta de diversidade faz com que o jornalismo careça de uma visão igualitária sobre o que acontece na sociedade. Além disso, afirma que muitos jornalistas, tanto da nova mídia quanto da tradicional, levam preconceitos do cotidiano para a redação. "É preciso renovar a mídia tradicional. A visão de muitos jornalistas ainda funciona sob o modelo Casa Grande-Senzala", conclui Amora.


O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

04/07/2015

Para jornalistas, documentos da Lava Jato na web são exemplo de transparência

Por Camila Alvarenga


Foto: Phillipe Watanabe
Das várias inovações que a investigação da Operação Lava Jato trouxe, uma foi a publicação dos documentos do processo na internet. A mando do juiz do caso, Sérgio Moro, todas as informações referentes ao processo estão disponíveis no site do Tribunal Regional Federal - 4ª Região, algo, até então, exclusivo ao Supremo Tribunal Federal (STF). Isso possibilitou à imprensa acompanhar de perto o caso, justamente por possuir muitas e detalhadas informações.

"Existe uma novidade aqui, até muito atacada por quem está sendo investigado de vazamento de informação, mas boa parte das informações vindas a público não são fruto de vazamento", comentou Ricardo Brandt, jornalista do Estado de S.Paulo, que se reuniu ao lado dos repórteres Rubens Valente, da Folha de S.Paulo,e Vladimir Netto, Rede Globo, para comentar os bastidores da cobertura da operação Lava Jato. A discussão aconteceu no último dia do 10º Congresso de Jornalismo da Abraji, um dia após a palestra de Moro no evento. 

A disponibilidade das informações na web também mudou a forma como os jornalistas passaram a fazer suas coberturas, "A gente tem que, no dia a dia, fazer o próprio trabalho de ficar monitorando os e-procs [Processo Judicial Eletrônico]. Quem acha que eu fico na porta da Polícia Federal esperando o delegado sair para falar com ele está errado, na verdade eu fico trancado no quarto, que nem um louco, lendo processos", continuou Brandt, que mantém cinco cadernos e um HD com pastas de tudo de relevante que encontra. Ele afirmou ser um trabalho "mais de suor do que com quem falar". Mas, para ele, não deixa de ser necessário saber com quem falar e no quê acreditar durante a apuração.

Valente, repórter em Brasília, ressaltou a importância de se ter acesso às informações do caso: "A maior ameaça à democracia brasileira é o sigilo judicial, porque acaba tendo uma casta da sociedade que sabe de muitas coisas que o resto da população não sabe. Numa sociedade corrupta como a nossa, isso é uma bomba. É um atentado à democracia". 

Os inquéritos mantidos em sigilo sobre a Operação Lava Jato são exceções e geralmente dizem respeito a investigações em andamento. De acordo com Valente, é trabalho do jornalista encontrar fontes que possuam informações que não estão disponíveis. 

No entanto, na tentativa de conseguir algo exclusivo e dar um furo, corre-se o risco de publicar informações equivocadas ou, como o próprio juiz Moro definiu em sua palestra, tirar os dados de suas devidas proporções. "Algumas pessoas ficam na expectativa, muitas vezes não tem a informação correta e, sob pressão, inventam coisas. Se não tem ninguém para interromper, isso vira uma bola de neve", colocou Brandt. 

O acesso e suas facilidades não significam, contudo, que não existam dificuldades. Os documentos disponibilizados são muitos grandes e, às vezes, apenas um parágrafo de tudo o que está ali é notícia. Sem mencionar informações sigilosas ou incompletas que dificultam o entendimento do caso. "Tem muitas histórias de dificuldade e de luta, mas é uma cobertura da qual dá orgulho de participar", finalizou Netto.

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

03/07/2015

Em crise, jornais impressos veem na tradição e na credibilidade a 'luz no fim do túnel'

Por Beatriz Atihe

Foto: Beatriz Sanz
Foto: Beatriz Sanz
O escritor britânico George Orwell dizia que a função do jornalismo é publicar aquilo que ninguém quer que seja publicado. A máxima foi usada pelo diretor de conteúdo do Grupo Estado, Ricardo Gandour, para explicar a relação da profissão com a sociedade nos dias de hoje. "Vivemos em uma sociedade em que tudo precisa dar certo e o jornalismo atrapalha. Conviver com o jornalista é conviver com o incômodo", disse no 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, em São Paulo.

Gandour falou do futuro dos jornais impressos, ao lado de Ascânio Seleme, diretor do jornal O Globo, e de Vinícius Motta, secretário de redação da Folha de S. Paulo. A marca registrada do papel, para eles, é a credibilidade e a qualidade do conteúdo. Em uma época, na qual a internet e as mídias sociais têm ganhado cada vez mais espaço, eles acreditam que o modelo de negócio mudou e precisa ser adaptado a um novo público.

Para Gandour, um fenômeno que precisa ser discutido é a fragmentação da atenção causada pelos novos meios. "Esse fenômeno afeta tanto o lado da demanda quanto o da oferta. Por exemplo, o anunciante fragmenta mais sua verba e, com isso, o modelo de negócio", disse.

O jornalista ressaltou ainda o enfraquecimento da credibilidade da produção jornalística nas redes sociais. "O jornalismo é a disciplina da verificação e na internet você acaba encontrando textos sem as técnicas jornalísticas. Rumores são publicados sem serem apurados, aspas de organizações são colocadas sem serem averiguadas".

Seleme afirmou que a internet permite que as pessoas escrevam sobre qualquer assunto. "Muitas vezes, as pessoas não têm conhecimento sobre o que estão escrevendo. Então, cabe aos jornalistas colocarem os filtros no que é possível encontrar nesse meio."

Na opinião dele, existem algumas alternativas para enfrentar a crise como o aumento da produtividade com a otimização dos recursos, um planejamento sério, métricas e o domínio da tecnologia. "Os jornais precisam conhecer melhor o seu leitor, fazer apostas no conteúdo e ter qualidade". Seleme acredita que a luz no fim do túnel existirá enquanto os veículos forem portáteis e móveis. "Além de impresso, somos áudio, blogs, gráficos. Somos todas as plataformas dentro do conteúdo. Somos notícia e é isso que vamos buscar."

Ao comentar sobre a diferença entre o impresso e o digital, o jornalista afirma que é o conteúdo diferenciado. "Buscamos dar ao leitor aquelas reportagens fora da pauta, que ele não vai encontrar entre os jornais". Foi nesse sentido que o jornal carioca apostou na criação de uma equipe exclusivamente dedicada à produção do impresso.

Questionado sobre como seria o jornalismo sem o impresso, o secretário de redação da Folha de S.Paulo, Vinicius Motta, disse que isso desvalorizaria o jornalismo. "O impresso não pode acabar sem destroçar uma redação. Metade da força de trabalho não poderia ser empregada. A ideia de preservar o papel é constante e tem o respaldo do público".

Motta reitera que os veículos estão passando por uma crise adaptadora, mas diz ter certeza da sobrevivência dos grandes jornais. "O que é claro para nós é que o produto impresso precisa ser adaptado às novas demandas do público, às novas características da sociedade, à velocidade, à fragmentação. Mas nosso objetivo central é manter o papel para aproveitar o lado bom dessa transformação e os mecanismos que ela oferece".

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.