28/06/2018

Afirmar que o Rio de Janeiro vive situação de guerra justifica violência policial, diz jornalista

"A partir do momento em que a sociedade encara que é uma guerra, a polícia não precisa justificar a violência", diz Leandro Demori


Por Dominique Tuane

Mesa discute a atuação da imprensa na Intervenção Militar no Rio de Janeiro  | Foto: Alice Vergueiro

Em agosto de 2017, o jornal Extra
publicou um editorial no qual declarava: daquele momento em diante passaria a adotar o termo "guerra" para definir a situação do Rio de Janeiro. O uso da expressão se intensificou ainda mais após o presidente Michel Temer decretar intervenção militar no estado em fevereiro deste ano.


Segundo Leandro Demori, jornalista do The Intercept Brasil e autor do livro "Cosa Nostra no Brasil: a história do mafioso que derrubou o império", existem interesses por trás do uso da expressão, já que "comportamentos autoritários passam a ser justificados a partir do momento que você acredita existir realmente uma guerra". Daí o uso recorrente de expressões fortes e até certo ponto exageradas para classificar a situação do estado, como "fogo cruzado", "inimigo", "efeitos colaterais" e frases similares, que passaram a se fazer presentes no noticiário e nas declarações das fontes oficiais.
"Interessa a quem lucra com isso, a quem é do estado e faz carreira com o discurso da violência", afirmou Demori durante a mesa "Intervenção no Rio de Janeiro: como cobrir?", nesta quinta-feira, que ocorreu durante o 13º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo.
Para ele, "a partir do momento que a sociedade encara que é uma guerra, ela [a polícia] não precisa justificar a violência, porque isso é guerra e em uma guerra você é violento e ponto".
Exemplos da apropriação deste termo para justificar excessos não faltam: em
entrevista concedida ao jornal Correio Braziliense quatro dias após a aprovação da intervenção, o ministro da Justiça, Torquato Jardim, afirmou que não existem guerras que não sejam letais. "Essa guerra moderna não é mais aquela de 1945, com inimigos uniformizados, terreno definido e batalhão organizado", disse.
Segundo ele, no Rio "qualquer um pode ser inimigo, não tem uniforme, não sabe qual é a arma. Você está preparado contra tudo e contra todos, todo o tempo. Você não sabe nem quais são os recursos necessários, não sabe quantos são necessários e usando qual arma. Quantos eu preciso para a Rocinha? Não sei”.
Em 2017, o General Blaz, porta-voz da PM do Rio, afirmou
em entrevista ao Bom Dia Rio, da TV, Globo, que a morte de Maria Eduarda, de 13 anos, baleada dentro de uma escola em Acari, zona norte do estado, havia sido um "dano colateral".
Rafael Soares, repórter do jornal Extra, também falou sobre a situação pela qual o estado passa. "De cada seis pessoas, uma é a polícia que mata", diz. Segundo ele, há nos veículos de informação do estado uma "disputa de narrativas" sobre como cobrir corretamente a intervenção. O jornalista destaca a necessidade de "ser o mais assertivo possível para fazer nossa narrativa prevalecer", ao defender que o estado não passa por uma guerra.
"Nossa cobertura tem tom"
Para Demori, é necessário que os meios de comunicação privilegiem às vítimas frente às fontes oficiais. "Esse é o tipo de cobertura que a gente faz. Nós não somos isentos, nós temos lado. Nós fazemos cobertura para incomodar", afirma.
Para ele, "se a gente acha que a militarização da favela não é o caminho, que aquelas cenas das forças de segurança são exageradas, não fazemos questão de manter boas relações com as fontes oficiais. Chamamos as coisas pelo nome", afirma o repórter.
Para Raull Santiago, morador do Complexo do Alemão e fundador do coletivo Papo Reto, também é necessário que a imprensa comprometida em cobrir a intervenção adequadamente dispute o seu espaço. "Nós começamos a disputar essa narrativa, porque não existe bala perdida", diz.

O grupo é composto por jovens moradores do Alemão e da Penha, e trata da defesa dos direitos humanos e segurança dos moradores da comunidade. Para ele, não há compromisso do Estado em dar assistência à população das periferias. "O Estado historicamente nos observa pela mira do fuzil da polícia", afirma.



O 13º Congresso internacional de Jornalismo investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, McDonald´s, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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