28/06/2018

“O que nos une é o jornalismo, não o furo”, aponta jornalista Guilherme Amado

Colaboração transnacional é alternativa para criação de novos grupos de profissionais de comunicação

Por Maria Vitória Ramos

Guilherme Amado sugeriu mais cooperação e menos individualismo na busca por 'furos' | Foto: Alice Vergueiro
A publicação dos arquivos conhecidos como ‘Panama Papers’, e posteriormente dos ‘Paradise Papers’, por meio do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ) acordou os profissionais da área para uma nova era, na qual a lógica competitiva e da clássica corrida pelo ‘furo jornalístico’ está gradualmente sendo substituída pela dinâmica da cooperação. A reflexão foi feita pelo jornalista Guilherme Amado, durante a mesa “Jornalismo colaborativo transnacional: crie sua própria rede”, na manhã do primeiro dia do 13º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo.



Para ele, hoje em dia é possível acessar esse universo sem pertencer a um grande veículo ou rede internacional. Basta criar a própria rede, ou mapear as que já existem na sua própria área de atuação.


A colaboração surge sempre a partir de uma necessidade: a informação específica, habilidades que nos faltam ou fontes difíceis de alcançar. Ninguém detém todos os recursos. “O jornalismo está percebendo que tem mais valor quando se integra”, avalia Amado. O maior e mais tradicional jornal do mundo, o New York Times, levou um tombo quando ficou de fora do projeto ‘Panama Papers’ e foi obrigado a repensar toda sua estrutura e forma de interagir com os outros produtores de notícia no mundo.


O jornalista do ‘O Globo’, que busca descontruir a perspectiva individualista da profissão lembra a importância de pensar no coletivo na hora de trabalhar. “Não queira crescer sozinhho, compartilhe conhecimento. Está fora de moda gente ególatra”, aponta.


Além do acesso a pessoas, informações e habilidades, a rede possibilita uma nova escala de impacto. “Sua reportagem vai rodar o mundo e as pessoas envolvidas vão se sentir cobradas”. O poder de fiscalização e cobrança de cada reportagem é potencializado pela distribuição global. Amado encoraja os jornalistas a fazerem o diálogo entre o local e o global: “o que você tem de único no seu lugar para contar para o mundo?”.


Referências


No Brasil não existem consórcios noticiosos estaduais, o que, na visão, de Amado ajudaria muito a acabar com os desertos de notícia espalhados pelo país. Como exemplo, ele cita o Calmatters, rede de jornalistas e veículos californianos que, ao produzir reportagens de forma integrada, ajudam a criar uma noção de comunidade, de estado. A união de diversos agentes também é um catalisador para patrocínios de grandes empresas que tendem a financiar instiuições maiores.


Através da criação de uma rede transnacional, o jornalista tem a possibilidade de construir uma carreira global e deixa de depender do instável mercado de trabalho nacional. Inseridos em um contexto internacional, “você e a sua reportagem ganham mais valor”. Na hora de montar a rede, a prioridade deve ser a capacidade de trabalhar em grupo. Amado lembra que não adianta ter grandes nomes se eles não têm uma dinânima colaborativa. Ele sugere começar com grupos pequenos que são mais fáceis de manejar. Não necessariamente essa rede precisa ser permanente e contínua, “três semanas antes da publicação você monta essa rede, que vai te ajudar a distribuir a reportagem”.


O 13º Congresso internacional de Jornalismo investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Mcdonald´s, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.



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