29/06/2018

Crianças dos EUA são tão segregadas quanto em 1972, afirma jornalista do NY Times

Nikole Hannah-Jones falou sobre trajetória profissional e criticou a falta de diversidade nas redações

Por Daniela Arcanjo


Nikole Hannah-Jones (NYT) e Marcelo Moreira (TV Globo) debateram no principal painel do dia. Foto: Alice Vergueiro
O encerramento do segundo dia do 13º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo teve a participação Nikole Hannah Jones, jornalista investigativa da ‘New York Times Magazine’, que foi a entrevistada da mesa “Cobrindo gênero e raça: o que podemos aprender com o NYTimes”. O encontro contou com a mediação de Marcelo Moreira, conselheiro da Abraji e jornalista da TV Globo.

Hannah-Jones ganhou diversos prêmios ao longo dos seus 15 anos de carreira, como o Peabody, George Polk e o Hechinger Grand Prize for Distinguished Education Reporting. Em 2015, foi eleita a jornalista do ano pela Associação Nacional de Jornalistas Negros e, em 2017, foi uma das 24 pessoas escolhidas para receber o MacArthur Fellowship.

Com o seu artigo “Escolhendo uma escola para a minha filha em um cidade segregada”, para a ‘New York Times Magazine’, ganhou o prêmio National Magazine. Hannah-Jones discorre sobre a batalha que percorreu para encontrar uma escola diversa e de qualidade para a filha, em um sistema escolar que, segundo ela, ainda divide negros e brancos e prioriza o segundo grupo.

A jornalista afirma que não há progresso quando se trata de racismo. “Meu pai não precisava ser grato por não ter sido escravo, porque a escravidão nunca deveria ter existido”. No contexto educacional, ela compara a atual situação das escolas americanas com a vivida no período pós-segregação, que se deu na década de 1970.

A repórter aponta a igualdade escolar, em termos de qualidade de ensino e de oportunidades, como uma das saídas para acabar com o racismo nos Estados Unidos. “A diferença nas escolas explica grande parte da desigualdade nos Estados Unidos”, afirma. E completa: “alguém toma as decisões para que as escolas negras tenham a pior infraestrutura”. Para ela, as escolas americanas não estão quebradas, e sim funcionando como o programado.

Essa situação é refletida no jornalismo americano. Segundo Hannah-Jones, os jornalistas são majoritariamente brancos e ignoram os problemas negros que não tem grande visibilidade na cobertura da imprensa. Para ela, isso acontece especialmente no jornalismo investigativo. “A parte da América que eu cubro é a América que vocês nunca viram, mas é também a América que grande parte dos americanos brancos nunca viram”, afirma.

Ida B. Wells Society

Com esse problema em mente, Hannah-Jones resolveu, em 2016, fundar uma sociedade com alguns colegas. A Sociedade Ida B. Wells treina jornalistas negros para serem jornalistas investigativos e, dessa forma, aumentar a quantidade de negros nas redações do país. Segundo ela, o trabalho jornalístico não é objetivo, e ter a visão de outros grupos sociais é essencial.

Hannah-Jones diz que é importante contar com a diversidade nas redações para que negros e outras minorias sejam vistas de um ponto de vista mais humano. “Nas redações as pessoas se dizem progressistas, mas há ainda muito preconceito e reprodução de estereótipos”, afirma. E o curso tem um impacto também nos alunos: as pessoas que vão ao curso falam que nunca foram treinadas por pessoas negras. “É muito poderoso ver pessoas como você fazendo o que você quer fazer”, completa.

O 13º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, McDonald's, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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