30/06/2018

Para além dos conflitos: os motivos dos deslocamentos forçados

Projeto “Um Mundo de Muros” retratou pessoas segregadas por barreiras

Por Samara Najjar

Lalo de Almeida e Patrícia Campos Mello, ambos da Folha de S.Paulo, falando sobre cobertura internacional. Foto: Alice Vergueiro.
Nos últimos anos, os fluxos imigratórios no mundo aumentaram de maneira exponencial e com isso, a presença de refugiados e migrantes passou a ser vista como um problema.

Como consequência, a construção de muros foi multiplicada no planeta. Na mesa de abertura do último dia do 13º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, a repórter Patrícia Campos Mello e o fotojornalista Lalo de Almeida, ambos da Folha de S. Paulo, mostraram por meio da série multimídia “Um Mundo de Muros” que não há apenas refugiados de guerra, existem vítimas de disputas territoriais, fenômenos socioeconômicos, climáticos, culturais e da violência urbana.


O projeto surgiu da necessidade de entender o motivo pelo qual pessoas saem das suas casas para enfrentar essas segregações. Os lugares para onde se deslocam muitas vezes podem ser um ambiente de tanta vulnerabilidade quanto o ponto de partida. “Onde tem muro, é um lugar onde há sempre um tipo de tensão, é um lugar de conflito”, disse Lalo.

A equipe de reportagem mapeou seis regiões em diversos países onde há muros segregando populações para produzir o especial. Entre eles estão: Cisjordânia e IsraelSérvia e HungriaEstados Unidos e MéxicoQuênia e Somáliaem Lima, capital do Peru e na Baixada Santista do Estado de São Paulo, aqui no Brasil.

As barreiras retratadas separam fronteiras, desigualdade, freiam refugiados, ou buscam esconder a pobreza. No caso brasileiro, por exemplo, um grande muro divide os motoristas que trafegam pela rodovia dos Imigrantes da comunidade Vila Esperança, em Cubatão. “A Ecovias disse que foi para diminuir os assaltos na região”, comentou Patrícia.

A decisão da concessionária que administra o trecho impactou diretamente a comunidade. Moradores do local que costumavam vender produtos durante os congestionamentos na via perderam a fonte de renda por não ter mais acesso à estrada.

Obstáculos

Patrícia comenta ainda que o projeto era bem mais amplo, porém, por questões orçamentárias, ele teve que ser reduzido. Para selecionar as regiões que seriam retratadas, foi feito um trabalho de pré-produção. Todavia, no local, muitas vezes acontecem inúmeros desdobramentos, fazendo com que o repórter tenha que contornar a situação. “Nosso esquema é na raça”, brinca a jornalista.

Para Lalo, uma das maiores dificuldades da produção multimídia foi definir o que é prioridade. Por ser uma temática sensível em alguns lugares ele tinha pouquíssimo tempo para fazer as imagens. “Tinha que decidir se filmava com o drone, se fotografava, ou se acompanhava a Patrícia. Era complicado, porque há uma diferença de demanda da repórter e do fotógrafo”, conta.

A autorização para retratar os locais foi apresentada, em consenso pelos jornalistas, como a maior dificuldade do projeto. Segundo eles, foi preciso negociar com entidades governamentais, forças militares e até milícias.

O 13º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, McDonald's, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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