30/06/2018

É um erro achar que a cobertura da Lava Jato foi só vazamento seletivo, aponta jornalista

Repórteres discutiram erros e acertos da imprensa após quatro anos da operação

Por Jeniffer Mendonça
Thiago Prado(O Globo), Andreza Matais(Estadão) e Rubens Valente(Folha) avaliaram que os quatro anos de Lava Jato trouxeram maturidade aos jornalistas. (Foto:Alice Vergueiro)
A imprensa passou a lidar com um volume intenso de informações diárias via fontes oficiais há quatro anos, desde que a primeira fase da Operação Lava Jato foi deflagrada. Para a editora da coluna do Estadão em Brasília, Andreza Matais, os veículos não conseguiram ter um olhar crítico no começo porque “a gente se deparou com a história na nossa frente, uma operação avassaladora, a primeira da era digital e a maior do mundo”.



Ao lado dela, os jornalistas Rubens Valente, da sucursal em Brasília da 'Folha de S. Paulo', e Thiago Prado, editor adjunto de País do jornal 'O Globo', discutiram os erros e acertos da cobertura das investigações, que já passaram da 50ª fase. A mediação foi do jornalista Guilherme Amado, da JSK Standford e do 'O Globo'.

Matais aponta que a Lava Jato foi inédita ao dar mais transparência nos casos por causa da criação do sistema E-Proc, criado pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região da Justiça Federal. Ela rechaçou a ideia de que as matérias se baseavam unicamente em vazamentos. “O juiz Sergio Moro colocou todas as informações nesse sistema, promovendo um acesso em tempo real do que estava acontecendo e isso foi importante para que não só jornalistas, mas toda a sociedade pudesse acompanhar”, declarou. “Nem tudo é vazamento porque os documentos estão no E-Proc. Vazamento é quando você consegue uma informação que não é pública”, ressaltou.

Por outro lado, a colunista do Estadão enfatizou que esse número expressivo de dados causou uma dependência das fontes oficiais, o que dificultava a realização de reportagens que realizassem a “investigação das investigações”. “A Lava Jato estava à frente de nós porque realizam quebra de sigilo, então era mais difícil apresentar o que a operação já não tinha descoberto. Histórias como as nossas, acabaram ficando à margem”. É dela a reportagem que venceu o Prêmio Esso em 2012 por expor o enriquecimento do ex-ministro Antônio Palocci.

Autor da reportagem que ajudou a prender o ex-diretor da Petrobrás Nestor Cerveró, Thiago Prado aponta que é “inevitável”, num primeiro momento, a imprensa ficar “refém” das fontes. “Um relatório da COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) tinha apontado que o ex-governador Sergio Cabral tinha R$ 385 milhões na conta, mas errou, eram R$ 385 mil, e toda a imprensa divulgou. O que nos diferencia é que temos o compromisso de nos corrigir depois e agora estamos mais atentos para parar e questionar”, exemplificou.

Outro aspecto levantado pelos palestrantes foram as delações. Para Rubens Valente, da 'Folha', faltou debater a autenticidade das supostas confissões, que num primeiro momento se pautou pelo “denunciatismo” dos casos que apareciam. “Demoramos de passar a discussão política das delações para a técnica porque isso ainda era muito novo na cobertura. Estamos atrasados no debate sobre as confissões falsas", disse. “Os advogados surgiram com muita força e usaram a imprensa para dar recados a outros investigados, isso foi um erro”, complementou Andreza Matais.

O trio destacou que os quatro anos trouxeram maturidade aos jornalistas para reavaliar as informações provenientes das instituições oficiais e outras fontes. Para o grupo, desconfiar das fontes é imprescindível. “Em 2014, era capaz de ter matéria falando que tal governador foi citado mas sem o básico do lide: de onde, quando, o básico. Estamos mais cuidadosos para publicar delação, além de que a própria Lava Jato melhorou nesse sentido, com a qualidade dos depoimentos”, analisou Thiago Prado.

Rubens Valente defende a criação de unidades investigativas nas redações para aprimorar esse trabalho. “Investigação demanda tempo, recursos. O jornalista não pode estar ocupado cobrindo o dia para o jornal. Ainda não temos isso e é algo que deveria ser repensado.”

O 13º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Mcdonald´s, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.




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