30/06/2018

Assédios e abusos contra mulheres ainda prevalecem em redações, aponta pesquisa

Estudo indica que 70% das jornalistas já foram assediadas no ambiente de trabalho

Por Luana Nunes e Wallace Leray

Natália Mazotte, da Open Knowledge, Maiá Menezes, do O Globo, e Marta Gleich, do Zero Hora, em painel sobre mulheres no jornalismo brasileiro. Foto: Alice Vergueiro.
De acordo com a pesquisa “Mulheres no jornalismo brasileiro”, desenvolvida pela instituição Gênero e Número em parceria com a Abraji e com o Google News Lab, 70% das jornalistas mulheres já foram assediadas no exercício da profissão ou presenciaram uma colega sendo cantada no ambiente de trabalho.

O estudo também aponta que 64% das mulheres já sofreram abuso de poder ou autoridade de chefes, 93,3% ouviram piadas machistas no ambiente de trabalho e 83,6% sofreram algum tipo de violência psicológica nas redações.

Publicado em 2017, o levantamento foi produzido a partir de dados compilados através de questionário preenchido por 477 profissionais de 271 veículos distintos, entre junho e agosto do mesmo ano.

Segundo Maiá Menezes, editora-adjunta de Política no Globo e diretora da Abraji, as redações ainda são muito machistas e sexistas, especialmente em editorias de política e esporte, propícias à promoção de piadas e assédios diário.

“Até que ponto sermos mulheres nos torna mais alvo?”, indaga Maiá, que participou de roda de conversa sobre o tema no 13º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, ao lado de Marta Gleich, diretora de redação do Zero Hora, e Natália Mazotte, co-fundadora da Gênero e Número e atualmente representante da Open Knowledge Brasil. “Eu fui submetida a dezenas de situações [de abuso] consideradas naturais”, conclui a jornalista.  

Política de igualdade de gênero no Grupo RBS

O Grupo RBS - rede empresarial dona do jornal Zero Hora - desenvolveu há cinco anos um projeto para alertar e conscientizar seus funcionários, sobretudo homens, sobre a importância de respeitar as mulheres no ambiente corporativo. Intitulado como Grupo Jura, em homenagem a uma ex-telefonista da empresa assassinada por seu parceiro, a equipe está atualmente composta por 90 jornalistas.

Gleich conta que, desde a implementação do código de ética, observa-se o desconforto gerado entre homens na redação. “Inclusive, por causa dessa iniciativa, já houve demissões através de denúncias feitas neste portal de código de ética”, diz, enfatizando o valor do documento e como ele vem sendo respeitado à risca. 

A diretora de redação explica que, além das questões gênero, foram criados grupos temáticos para debater outros assuntos que merecem atenção em um ambiente de trabalho, como igualdade racial e questões LGBTQI.

Durante ao painel realizado no congresso, a jornalista ainda exibiu vídeos de outras colegas de profissão relatando casos de agressão. 

O 13º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, McDonald's, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji. 

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