29/06/2018

O acaso pode ser o começo de uma boa reportagem, mas nem sempre

O que a história de Waldirene Nogueira e o perfil de Ricardo Corrêa, o fofão da Augusta, têm em comum?

Por Luana Nunes e Ruam Oliveira
Amanda Rossi(BBC), Chico Felitti(freelance) e Carla Jimenez(El Pais) formaram a mesa
Se Amanda Rossi, repórter da BBC Brasil, e o jornalista Chico Felitti esperassem apenas pelo acaso para escrever as histórias que se tornaram famosas, elas não existiriam. Para ambos a insistência foi crucial para a realização das matérias.

Eles consideram que o acaso na reportagem acaba sendo apenas o começo, um start, e o repórter precisa dedicar-se muito caso queira ver o material publicado. O tema foi abordado pelos repórteres na tarde desta sexta-feira, 29, na mesa ‘Quando o acaso rende boas reportagens’ no 13º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo. “Acho até que o nome dessa mesa está errado”, brincou Felitti.

 “Quando você está cobrindo uma história, parece que é só ela que está acontecendo”, enfatizou Rossi. Este envolvimento com a pauta, segundo ela, precisa ser encarado com cautela. Para a repórter da BBC Brasil, a postura jornalística precisa sempre se manter clara, mesmo que após a pauta - ou até mesmo durante a apuração - o profissional estabeleça uma relação próxima com a fonte. “Não dá para esquecer que ainda somos jornalistas”.

Felitti discorda. Autor do famoso perfil de Ricardo Corrêa, mais conhecido como Fofão da Augusta, morto em dezembro de 2017, aponta que, para ele, não existe um limite. “Estou tentando arrecadar dinheiro para a Animal ir para os GayGames, porque é o sonho dela”, ri. Animal é Ana Luiza dos Anjos, maratonista que vivia há 17 anos em um quarto no Ginásio do Ibirapuera, personagem de outro perfil escrito por Felitti e de quem virou amigo: “Ela foi até no meu casamento”.

Nenhum deles ignora a responsabilidade de contar a história de alguém. No caso do perfil de Ricardo Corrêa, Felitti conta que passou a noite que antecedeu a publicação sem dormir, preocupado com o impacto que a história teria.

Amanda Rossi escreveu a história de Waldirene Nogueira, primeira transexual a passar por uma cirurgia de readequação de sexo no país. O assunto surgiu durante uma conversa com funcionários do Arquivo do Tribunal de Justiça de São Paulo, enquanto realizava outra apuração. Mas ela precisou negociar bastante com sua chefia para executar a pauta.

Os profissionais que participaram da mesa estimaram que 50% da profissão jornalística é saber como vender a pauta. “Isso é algo que não se aprende na faculdade”, disse Felitti.

Do outro lado do balcão, Carla Jimenez, editora do jornal El Pais e mediadora do painel, reafirmou o interesse em boas histórias, mesmo que elas não atinjam grandes números de audiência. Para ela, os jornais brasileiros passam por uma mudança nesse sentido: “Não pode ser só métrica”.

O 13º Congresso internacional de Jornalismo investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, McDonald's, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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