29/06/2018

Jornais e revistas buscam repórteres com perfil multitarefa

As mudanças no ambiente de trabalho interferem na rotina do profissional de comunicação

Por Ruam Oliveira

Alan Gripp (O Globo), Marcelo Beraba (Abraji), Daniela Pinheiro (Época), Sérgio Dávila (Folha de S.Paulo) e Rosental Calmon Alves (Centro Knight para o Jornalismo nas Américas). Foto: Alice Vergueiro.
A integração entre plataformas não é a única transformação a que os diretores de redação precisam estar atentos. Passando por um período de mutação nos modos de fazer jornalismo, a figura do repórter também é diretamente impactada por todas estas mudanças. “O espírito multitarefa é o espírito do repórter moderno”, apontou Alan Gripp, diretor de redação do jornal O Globo, durante palestra no 13º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji.


Gripp, Daniela Pinheiro, diretora de redação da revista Época, Sérgio Dávila, editor-executivo do jornal Folha de S. Paulo, e Marcelo Beraba, responsável pela sucursal do Estadão no Distrito Federal, discutiram o assunto na mesa ‘O Comando em mutação: diretores de redação na era das transformações’.

O repórter que ia para a rua, fazia a apuração, voltava para a redação e depois estava livre do trabalho não existe mais. “Hoje em dia colocar o ponto final no texto é o começo de seus problemas”, apontou Dávila. 

Num momento em que as redações vivem intensa transformação não só na forma de produzir o conteúdo, mas também como fazê-lo chegar ao leitor, ao jornalista não basta escrever uma matéria. Esse profissional precisa acompanhar o desempenho online do texto e saber se a matéria cabe na versão mobile - de onde vem grande parte dos acessos -, além de produzir diferentes títulos que se adaptem às redes, à plataforma digital e ao impresso. E, por fim, deve pensar em métricas.

É como se a responsabilidade com o texto se tornasse praticamente infinita. Passado um ano de determinada reportagem, por exemplo, cabe ao repórter que a produziu relembrar seu editor de fazer link caso o mesmo assunto torne a aparecer no noticiário, sugerir um acompanhamento etc.

Nesta realidade, a gama de exigências em relação ao repórter segue alta, ainda mais com as redações cada vez menores. 
A alteração para redação integrada junto com o jornal O Globo e jornal Extra, fez com que a revista Época, por exemplo, passasse a ter cerca de 450 jornalistas ao seu dispor, apontou Daniela Pinheiro.

Na prática, isto significa que os profissionais são compartilhados entre os três veículos. Dos quase 50 dedicados anteriormente apenas à revista, apenas 12 profissionais permaneceram após a reformulação de operações.

Beraba destaca que uma equipe reduzida precisa ser muito qualificada. “Se você não tiver uma equipe muito boa, forte e preparada, dificilmente conseguirá fazer muita coisa. Valia na década de 1970 e continua valendo hoje”, aponta.

Modelo de negócios

Igualmente, a forma de entrega do conteúdo também se alterou. Desde fevereiro deste ano, a Folha de S. Paulo não utiliza mais o Facebook para veicular seus materiais. “Não aconteceu nada”, disse o representante do jornal quando questionado sobre os impactos desta decisão.

É consenso entre eles que a qualidade deve ser o objetivo central de todas as produções. O alcance e audiência são fatores secundários no momento de decisão de onde devem ou não investir seus esforços. “O bom jornalismo é a chave da coisa”, reforçou Gripp.

“Cortar custos é um modelo de negócios finito”, disse Rosental Calmon Alves, do Centro Knight para o Jornalismo nas Américas, que atuou como mediador da palestra. Ele reforça que neste momento, a imprensa saiu do quantitativo e passou ao qualitativo.

No caso do jornal O Globo e Folha de S. Paulo, por exemplo, a maior parte das receitas vem de consumidores pagantes, por meio de paywall e assinaturas. Mais do que números, os editores buscam audiência qualificada.

O 13º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, McDonald's, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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