28/06/2018

Amazônia além dos clichês

Gigante em extensão e rica em diversidade, região ainda é retratada com vícios e pré-conceitos por grande parte da imprensa

Por Juliana Venturi Tahamtani

Jornalistas que cobrem a região amazônica deram exemplos de como fugir do lugar-comum | Foto: Alice Vergueiro

Por mais rica e diversa que seja uma região do País, cobrir esse único espaço por décadas e seguir trazendo histórias relevantes é um grande desafio. Esse é o caso da Amazônia.


Os olhares em torno dessa região que ocupa mais de 60% do território brasileiro e abriga 12% da população do país foi pauta do painel “Cobertura da Amazônia: desafios e temas”, no 13º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, com mediação do jornalista Hector Escobar, de O Estado de S.Paulo.

O desafio de mostrar como se debruçar sobre a Amazônia sem cair em clichês ficou com os jornalistas Gustavo Faleiros, do projeto Infoamazonia, Kátia Brasil, do Amazônia real e Elvira Lobato, freelancer.

Depois de aposentada e com anos de experiência cobrindo o setor de comunicação e radiofusão, Elvira pôde ir a fundo em seu tema de paixão que é pouco conhecido no Brasil: a imensa quantidade de emissoras de televisão na Amazônia Legal.

De acordo com uma reportagem especial da jornalista para a Pública, em 2016 havia 1.737 canais espalhados por 742 municípios no Pará, Rondônia, Acre, Amazonas, Roraima, Amapá, Tocantins, Maranhão e Mato Grosso. Ainda segundo a reportagem, ter uma retransmissora nessas localidades equivale a ter uma emissora de televisão, sendo um quinto desses canais pertencente a políticos. Empresários e igrejas também brigam para ocupar esse espaço.

“No interior da amazônia todo mundo é notícia, e todos conhecem os personagens da narrativa”, conta Elvira sobre as reportagens veiculadas. Ela acrescenta ainda que esse é o ponto diferencial entre a repercussão da mídia local e a grande imprensa.

Entre 2015 e 2016, Elvira Lobato, que trabalhou na Folha de S.Paulo por 25 anos e venceu alguns dos principais prêmios de jornalismo no Brasil, com destaque para o Prêmio Esso, realizou expedições ao interior de vários estados da região para estudar esses meios de informação locais.

Contar essas histórias seria um dos caminhos apresentados pelos painelistas para não cair na repetição dos grandes clichês que alimentam o desinteresse da população pela narrativa amazônica.

Outro exemplo positivo é o projeto da Infoamazônia, apresentado no Congresso por Gustavo Faleiros.

Sustentado por uma rede de organizações e jornalistas que oferecem atualizações constantes sobre os nove países que compõem a região, o projeto é uma ferramenta para mergulhar no tema. Para Faleiros, iniciativas como essa são importantes para mostrar que a Amazônia é muito mais do que o “grande pulmão do mundo”. “A Amazônia é um valor, não é somente uma região, é uma ideia” ressalta.

O assunto sempre foi uma pauta global. Afinal, é a maior floresta tropical do mundo, com uma área de cerca de 5,5 milhões de km². Em virtude de sua dimensão e importância socioambiental, sua conservação é debatida em âmbito internacional. E o grande desafio é claro: estabelecer uma representação que seja capaz de cobrir a sua grandeza.
Um dos exemplos dados por Faleiros, que também representa o olhar de Elvira Lobato sobre a Amazônia, é o das narrativas históricas como as de populações indígenas isoladas que chocam a nossa visão do mundo atual.

A constituição federal, em seu artigo 231, reconhece a organização social, os hábitos, os costumes, as tradições e as diferenças culturais dos povos indígenas, assegurando-lhes o direito de manter sua cultura, identidade e modo de ser, colocando-se como dever do Estado brasileiro a sua proteção, mas ainda há muitos avanços a serem feitos tanto no âmbito do debate quanto da prática.
Para  Kátia Brasil, jornalista do Amazônia Real, esses índios não tem interesse em viver na nossa sociedade e são felizes com a vida que escolheram seguir.  Kátia ganhou 1o. Prêmio de Jornalismo da Associação Médica do Estado do Amazonas, em 1995 e também foi indicada ao Troféu Mulher Imprensa em 2011.

No Brasil, a Amazônia ainda não tem a importância que deveria e, como conclusão, os painelistas deixam um pedido aos profissionais da comunicação: é preciso um jornalismo independente e aberto aos desafios para abraçar esse tema.

O 13º Congresso internacional de Jornalismo investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, McDonald´s, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde a 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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