28/06/2018

Joseph Poliszuk relata as dificuldades de fazer jornalismo no ambiente caótico da Venezuela atual

Repórter compartilhou com o público a pressão e assédio que sofreu de setores governamentais e privados envolvidos em escândalos de corrupção

Por Dominique Tuane

Jornalista venezuelano Joseph Poliszuk, em palestra na quinta-feira dia 28 | Foto: Alice Vergueiro
A crise na Venezuela vem se deteriorando desde o governo Chavéz. A escassez de comida, remédios, itens básicos de higiene e grandes índices de inflação fez com que cerca de 1 milhão de pessoas deixassem o país entre 2014 e 2017, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas.

Roraima tem sido o principal destino daqueles que buscam fugir dessa crise. De acordo com a Polícia Federal, no final de dezembro de 2017, 30 mil venezuelanos pediram residência no Brasil. No entanto, o governo tem encontrado dificuldades em receber e abrigar esses imigrantes.

Além da precariedade da situação econômica da Venezuela, a censura dos meios de comunicação prejudica e retarda o trabalho dos jornalistas. Quatro deles estão sofrendo na pele as consequências da situação. Alfredo Meza, Ewald Scharfenberg, Roberto Deniz e Joseph Poliszuk saíram do país após a insegurança instaurada pela denúncia de difamação de um empresário ligado ao presidente venezuelano.

Em matéria publicada no site Armando.info, Poliszuk escancarou ligações escusas do empresário com o governo local, e a partir daí, passou a ser retaliado. Recebeu a solidariedade dos outros três companheiros de profissão e editores do portal. O venezuelano contou essa história na mesa 'O jornalismo no exílio', durante o 13º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo.

Denúncia
O site Armando.Info publicou duas matérias onde o nome do empresário Alex Nain Saab Moran é citado. Revelados em abril e setembro de 2017 os artigos afirmam um vínculo financeiro do empresário com o grupo 'Grand Limited do México' e com o programa do governo venezuelano para combater a fome e a desnutrição. As notícias ainda afirmavam que Saab mantinha um relacionamento de interesse comercial com o governo desde o antigo presidente, Hugo Chavéz.

Saab alegou que sua imagem e reputação foram afetas por conta dessas declarações. O empresário passou a acusar o site de difamação, entrando com um processo que resultaria em uma pena de um a seis anos de prisão e o pagamento de uma multa de US$ 60 mil, cerca de 231.780,00 reais.

Em matéria para o Knight Center for Journalism in the Americas, Alfredo Meza declarou: "Uma das coisas que nos obrigou a sair [da Venezuela] é que nos disseram que não tínhamos nenhuma chance de vencer o julgamento. A juíza encarregada do caso nunca ditou uma sentença em favor de alguém que não o governo, e isso sabemos por nossas investigações e pela base de dados que temos".

Joseph Poliszuk hoje viaja contando suas experiências e o que passou durante esse processo, e fala que os jornalistas estrangeiros que chegam à Caracas também sofrem com a censura. Se a matéria não for do agrado do governo o profissional pode ser mandado embora. “Muitos brasileiros estão sendo expulsos por matérias não tão polêmicas” afirma. Atualmente, ele vive da renda de projetos de financiamento coletivo e outras colaborações.

O 13º Congresso internacional de Jornalismo investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, McDonald's, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde a 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji. 

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